sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Cotidiano

Todo dia é sempre assim
No centro ou na favela
A policia no nosso pé
E a gente nos zóio dela

Todo dia é sempre assim
Em casa ou no botequim
Eu de umbigo na panela
E você c’os zóio em mim.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Um imenso mar azul.

( Para uma moça desonhecida que hoje pela manhã me sensibilizou sem querer, com sua história ouvida de canto de orelha. Me perdoe a intromissão, e agradeço a inspiração)

Pensando bem, olhando desta janela no décimo andar, eu não o conheço, mas posso até compreender o que fez. Porque hoje, depois de ter sabido do que houve, foi que eu resolvi me debruçar aqui, para quem sabe ver com os olhos de meu pai qual foi o imenso oceano, esta beleza que encheu suas vistas com tanta promessa, com tanta solução e fez com que se atirasse ontem à noite da janela do sexto andar do prédio residencial. Na verdade nem sei se se atirou ou se apenas caminhou, dando serenamente um passo ao nada... Não sei, afinal não poderia. Até hoje, o presente momento, eu o desconhecia.

Contudo agora, cá me percebo olhando desta janela onde ironicamente vê-se a Beira-Mar, o centro da cidade. As pessoas lá embaixo pequenininhas, como formigas, enfim despidas pelos meus olhos de qualquer máscara, dos anseios pessoais e particulares, hierarquias. Apenas ali pequeninas, como são imersas em sua minoridade, em sua ignorância. Aqui de cima é quase como se eu pudesse me fazer de Deus, como uma grande juíza, é como me sinto aqui de cima e todos estão, sem saber, apenas à mercê de meus próprios julgamentos, em meu profundo egoísmo, em minha inveja e desgosto ao mesmo tempo por esse bando, essa gente toda que circula pelo centro: uns feios e ricos, outros lindos e pobres, uns vindos de outras tantas partes.

Uma ambulância ecoa sua sirene até aqui no alto e atravessa minha impressão. Será que chama ao próprio Deus e clama por esta minoridade, será que é a mim que clama? Será que era por mim também que clamava meu pai? Será que era a mim que via ao correr para um malfadado abraço com o infinito? Fazia sua a voz daquela penetrante sirene que insistia? Eu não sei. Eu só o conheci hoje.

Pensar que na sexta feira passada, mal o reparei na festa. Era meu aniversário e eu estava tão radiante, tão plena. Mal o cumprimentei, ou agradeci pelo dinheiro empenhado. E para ser muito sincera, mal senti tristeza ontem, quando soube do ocorrido. Nem tristeza nem vazio, nem susto nem coisa alguma. Mas agora aqui da janela, este dia tão lindo, eu sinto uma espécie de pena, sinto dó e compreendo. Sinto o mesmo pesar que ele deve ter sentido ao ter-se dado conta de que havia sido aparado pelos fios de telefone e que ao fim de tudo ainda sentia o corpo, a dor, o impulso involuntário de ter que abrir os olhos e ver-se ainda ali, sem o mar azul, sem paraíso, sem sua solução fácil. Que pesar deve ter sentido por tomar tão brava e covarde atitude e ser frustrado pela amargura de reconhecer-se ainda, insistentemente, vivo.

Olhando daqui, numa rasante, nada furtaria uma queda. É o décimo andar, quatro a mais do que o sexto. Nenhum fio, nenhum obstáculo, nenhum aparador. Mas que contrariedade do destino, esta vista da Beira-Mar.

Daqui não vejo qualquer imenso mar azul.


terça-feira, 28 de julho de 2009

Eritrécio João Bastista dos Santos

Sentia sim um enorme vazio, um frio seco e persistente, mas que sabia que teria de enfrentar. Momentos como estes são sempre assim. Há de se contrair os músculos, de se secar a boca, de se agüentar firme com olhos atentos, vencendo o sono e o cansaço, vencendo a descrença e a preguiça, vencendo o tempo que passa devagar, vencendo assim a si mesmo, a todo o seu corpo que diz insistentemente: - “cai, desiste, vai embora!”. Ainda assim contrariar a si mesmo, calcado numa razão qualquer, numa suposta certeza de qualquer coisa, mas sim uma certeza de que ainda é necessário estar vivo, atento, forte é necessário segurar firme as pernas que teimam em bambear.

Eu sabia que aquele homem não era um criminoso. Eu sabia, porque no exato instante olhei fundo em seus olhos, eu vi sua decência cambalear - mas se vi foi porque havia uma - eu vi o medo, eu vi seus filhos e acreditei que não havia telefone residencial ou referência que se pudesse dar. Eu vi, era metalúrgico, tinha um salário de merda, uma aposentadoria próxima de merda, e não havia nem jamais estado naquela situação tão tensa, tão complicada antes, para que pudesse ter tido mais calma. Era um cidadão qualquer, tinha sim tomado umas cervejas, talvez muitas, antes de bater seu carro financiado, sem intenção certamente. Mas aquilo não poderia ser argumento, motivo para tamanha desgraça, ser preso, ser humilhado, ser mais um preto jogado ao fundo de uma cela por nada? Afinal era fim de semana, sexta ou sábado, talvez domingo ou segunda-feira cedo e quem seria o bom cristão que não estaria ao menos um pouco embriagado, se não fosse da cerveja barata ou da aguardente de cana, estaria embriagado do Fantástico, daquele glutão idiota do Faustão, falando absurdos, cagando na cabeça do povo, isto também haveria de embriagar a qualquer um, que desconcertado poderia mesmo ter saído depois de uma reportagem esdrúxula daquelas e dar de cara num poste, num carro ou num caminhão, e ninguém viria fazer o bafômetro, ninguém viria e lhe questionaria sobre quantos comerciais estúpidos de carros importados que ele jamais compraria ou quantas propagandas de empréstimos milagrosos vira antes de sair de casa.

Foi por isso que cambaleou, mas teve firmeza de prosseguir. Continuou a fitar os olhos daquele policial, das moças, dos rapazes que se aproximavam para ajudar. Buscou no fundo de si uma voz que não havia, para responder à pergunta. Conseguiu dizer apenas que a viatura era para si, e que iriam lhe prender. Não deve Eritrécio ter sentido meus olhos cheios de água, ou meu coração que rezava pedindo justiça, pedindo socorro por aquele homem, sincero e justo, quase velho, honesto, negro e assustado. Apenas um cidadão que fez algo errado, sem querer. Um irmão.

Olhou mais uma vez os olhos do policial que insistia em manter-lhe ali em sua frente apenas por um sadismo característico de muitos homens e mulheres da lei. Eram cinco e meia da manhã. Minhas pernas também bambearam. A sorte, contudo, é algo que também se cultiva. Não tivesse sido tão firme e tenso, não tivesse tido olhos tão ousados e afirmado sua condição demasiado humana, não lhe teriam respeitado. Não tivesse aproveitado tanto aquela festa, aquela noite fora de casa, aquela prosa com os velhos comparsas de praça, aquelas mulheres, aquela aguardente, não teria tido bravura. Não tivesse se sentido tão grande naquela noite, tão negro, tão homem, tão pobre, não teria tido a certeza de que merecia ser assim tão livre como parecia. Ao sair da delegacia ainda cambaleava, mas tive a impressão de ver um sorriso florir do canto de sua boca, ao desejar à alguém que passou um bom dia – que já despontava às seis da manhã – e um “tudo de bom”.

Pegou seu carro batido e foi embora rasteiro, mas com a certeza de quem em seu coração carrega o certo. Foi verdadeiro. Foi humano. Foi um santo brasileiro.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Veja bem, Bahia

Veja bem, Bahia
Não é que eu te goste mais,
Nem que pense que és mais que tudo, mais Bahia, mais amor
Veja bem,
Não estou agindo em defesa,
Deste Céu azul-mar,
Desta realeza Nagô,
Desta Capoeira,
Deste cocorocô de galo no terreiro,
Mas veja bem Bahia
Eu não sabia deste mar,
Eu desconhecia este cheiro, essas ruas, esse lugar
E quando ví, Bahia, já era eu a caminhar feliz,
Já era eu lembrando de que era eu andando pelas ruas
Quando ví passar, Bahia, o tempo
Quando ví passar num vento
Toda a magia de meus ancestrais,
De Oyá mãe dos nove filhos,
De Nanã, Iemojá,
E eu me avoei naquele canto, Bahia
Eu me nagô-baianizei
E agora tudo o que há é saudade, Bahia
Na cabaça do berimbau que berra,
Tudo é vontade, Bahia, mas veja bem
Não desdizendo dos outros lugares,
Não tendo na boca o preconceito,
Eu só te amo mais que as outras, Bahia
É este o meu maior defeito
E se eu um dia te voltasse, menina
Se eu dançasse teu baticum
Eu ficaria pra sempre, Bahia
Pois igualzinho à Bahia
Existe lugar nenhum.

sábado, 30 de maio de 2009

Todas aquelas coisas, Mariana.


Mariana nua, de ventre de Nilo, sabes bem que é sua a dor e o destilo,

De carnes tão vermelhas-cruas,
De uma cachaça de milho,
De todo o torpor das ruas, e do choro de um filho.
Nua neste solo fértil, em época de vacas magras
Não te abomines o mundo, não te canses de afiar as garras...este é teu Eu mais profundo,

estas são minhas amarras. Nua, bela e morena, há de cuspir longe, há de mostrar as penas, há de pintar do mesmo

- vermelho carne-

tuas entranhas,
há de ser só você,
nua,
poema,
Mariana.

terça-feira, 26 de maio de 2009

(Pra você que às vezes teima em esquecer da razão de meu afeto...)

Não sei se te acordes, ou cordas, pudera!
Las calles que me ouviram, tu nunca conheceras.

Em todos os ouvidos, me olvidan, yo sei
Mistura de gringo com índio, es lo que me pareces usted.
Cruzado em teu peito, colar feito d’alma
Mistura mais que buena, tua energia e minha calma
Maracas la salsa, ganzá tamborim
Foi minha comadre, su madre, quem fez você só pra mim
Um cheiro de hombre, seus olhos de estrela
A voz de trovão, que sussurra à orelha
Me ensina, me acolhe, me deixa menina,
Foi o mundo, a vida ou a América Latina?
Quem te fez capaz de me ter caliente en sus brazos
Sem cerimônia, sem medo e sem embaraço
E me fez saber, mesmo que esperneasse
Que és só tu que hoy, contenta me haces.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Das dores de Dolores

Dolores,
Eu te chamava porque tinhas tantas
Dolores, nem uma semana tinhas e ainda assim já tão cheia
De uma inconformidade, uma veia de não querer
Dolores,
Eu te amei porque eras frágil,
Eu te quis cuidar as dores,
Eu te quis encher a pança,
Eu te quis ver caminhar...
E que paradoxal desejo, quando tu respiravas e eu não sabia
Se era porque ficavas,
Ou se era porque ias,
Dolores eu te imagino não tendo.
Nem remoendo, nem torcendo o pescoço,
Dolores, eu te daria um osso,
Eu te mudaria pra sempre o nome
E jamais contaria a ninguém das tuas
Dolores,
E quando perguntassem, poderias apenas dizer-lhes
Que te chamassem de Maria.
Maria dos Prazeres.