Eram tantos misturados, éramos apenas nós fantasiados de alegria aos montes. Foram dias de calor no sempre quente solo do Rio de Janeiro. Porém foram dias dotados de uma aura diferente, de uma catarse explosiva. Ebulição, calor e sangue. E além. Foi além, porque eu vi o poeta Ferreira Gullar sentar ao meu lado e sorrir para mim. O poeta riu da minha fantasia e disso foi feito mais que vida. Foi feita a vida que a gente desejava felicitar pelas ruas e deixar fingir, deixar jorrar. Inventamos do sorriso do poeta Ferreira Gullar a permissão para abraçarmos nossos irmãos pela primeira e última vez sem barreiras e beijar muito - beijar o mundo, em seguidos atos de carinho. Era o Carnaval envolvendo todos com seu mormaço e fornecendo o direito de fecharmos os olhos para a dor e de sermos felizes.
(E então neste momento me dirá o chato politicamente correto: " - Mas o Carnaval é o ópio do povo, nada se faz no Brasil antes do Carnaval, nenhum problema existe e isso, e aquilo outro e xurumelas..." E eu direi: " - Vai chorar pra lá seu chato! Vai porque eu sou poeta e só vivo do ópio, do sonho e da fantasia. Eu quero mais é que se dane tudo, tenho uma vida inteira para sofrer se for preciso, mas hoje não. Hoje é tudo poá e paetê.")
De duras já me bastam as verdades do mundo. Portanto ainda que eu me esfole, me lasque, me perca e enlouqueça nestes dias, ainda que tanta ilusão me cause feridas expostas, escancare meus medos e desejos mais absurdos e me desarme perante o espelho, eu vou me abir. Eu vou ser mais um coração na multidão, ou menor que isso, eu serei um glóbulo vermelho do sangue levado pelas veias e ruas da cidade ao coração da multidão pulsante ao som de "Cidade Maravilhosa".
Para citar o Chico pela última vez (ou que seja esta a derradeira mentira de Fevereiro): Carnaval, desengano.
Essa gente colorida me deixou sonhando...
Tabuleiro de Iaiá
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Cá entre nós.
Era eu ou era ela, esmagando e inflando o teu coração
Enquanto o Chico cantava bonito a melodia de "Tipo um Baião" ?
Era ela ou era eu, quem decerto te fazia lembrar
O lamento de senzala, donde se olhava a "Sinhá"?
Era minha ou era dela aquela malfadada cena
De acarinhar cabelos brancos, sendo ainda "Essa Pequena"?
Quem constará em seu "Querido Diário" como a mulher daquele dia?
Será que fui eu ou foi só ela, quem tarde ocupou tua cama vazia?
Ah! "Se eu Soubesse", ainda assim andava
Nas ruas sombrias de nossos velhos tempos
Mas cá entre nós, ninguém nos ouça!
Pois são meus e são teus estes segredos
Embora os tenhamos escancarado...
E ela não saiba da missa o enredo
Já não é mais meu, nem eu sou sua.
Da arte é a vida o arremedo!
Enquanto o Chico cantava bonito a melodia de "Tipo um Baião" ?
Era ela ou era eu, quem decerto te fazia lembrar
O lamento de senzala, donde se olhava a "Sinhá"?
Era minha ou era dela aquela malfadada cena
De acarinhar cabelos brancos, sendo ainda "Essa Pequena"?
Quem constará em seu "Querido Diário" como a mulher daquele dia?
Será que fui eu ou foi só ela, quem tarde ocupou tua cama vazia?
Ah! "Se eu Soubesse", ainda assim andava
Nas ruas sombrias de nossos velhos tempos
Mas cá entre nós, ninguém nos ouça!
Pois são meus e são teus estes segredos
Embora os tenhamos escancarado...
E ela não saiba da missa o enredo
Já não é mais meu, nem eu sou sua.
Da arte é a vida o arremedo!
sábado, 4 de fevereiro de 2012
Ah! Os foliões.
Em homenagem ao sonorosíssimo bloco das Carmelitas
Então logo eu entendi - era o último ensaio do Carmelitas no pré-Carnaval.
Só sei que fazendo a lata de microfone ele cantava a saudosa marchinha:
“... Benzinho, não leve a mal
Só mais uma semana e começa o Carnaval
Me dê uns quinze dias pra poder pensar melhor
Se eu decido agora, te garanto que é pior
Carrego cá pra mim intuição
Ou uma espécie de superstição
Eu juro ser só teu o ano inteiro
Mas só depois que passar Fevereiro... “
Então logo eu entendi - era o último ensaio do Carmelitas no pré-Carnaval.
Só sei que fazendo a lata de microfone ele cantava a saudosa marchinha:
“... Benzinho, não leve a mal
Só mais uma semana e começa o Carnaval
Me dê uns quinze dias pra poder pensar melhor
Se eu decido agora, te garanto que é pior
Carrego cá pra mim intuição
Ou uma espécie de superstição
Eu juro ser só teu o ano inteiro
Mas só depois que passar Fevereiro... “
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
E quem não gosta?
Ah paixão, me deixa!
Vai pra longe de mim anjo alado!
Quanto mais se enrosca, mais se queixa
O meu coração sempre embriagado...
Ah quantos olhos, pernas, cabelos
Ah quantos cheiros, carinhos, risadas
Sendo o amor o maior dos apreços
Quantos tropeços, seguidas jornadas!
Se dentro de mim busco um canto isolado
De aconchego, onde eu seja sozinha
Ali também alguém me pede colo
E eu não sei negar quem acarinha...
Um amor pequeno, raro ou imenso
Um amor tenso, eterno ou manso
Qualquer grande amor, quando eu menos penso
Me leva o tormento e preenche meu canto!
Por isso sai de mim, me deixa!
Deixa eu seguir sozinha um instante
Pois quem mais gosta na falta se queixa,
Porque sem amor não se vai adiante.
Vai pra longe de mim anjo alado!
Quanto mais se enrosca, mais se queixa
O meu coração sempre embriagado...
Ah quantos olhos, pernas, cabelos
Ah quantos cheiros, carinhos, risadas
Sendo o amor o maior dos apreços
Quantos tropeços, seguidas jornadas!
Se dentro de mim busco um canto isolado
De aconchego, onde eu seja sozinha
Ali também alguém me pede colo
E eu não sei negar quem acarinha...
Um amor pequeno, raro ou imenso
Um amor tenso, eterno ou manso
Qualquer grande amor, quando eu menos penso
Me leva o tormento e preenche meu canto!
Por isso sai de mim, me deixa!
Deixa eu seguir sozinha um instante
Pois quem mais gosta na falta se queixa,
Porque sem amor não se vai adiante.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
Pra Curar Dodói.
Preza pelo tempo, estas horas difíceis. Tem a elas um bocado de atenção. Preza que depois isso passa, e a gente quase se esquece o que houve, porque a felicidade tem mais força que o sofrimento, porque é necessário ser mais forte aquilo que te levanta do que aquilo que te faz olhar de perto o chão chapiscado. Cuida bem direito, ama suas migalhas, menina. Embrulha-as com veludo e perfume. Que elas hão de ser preciosas, que hão de ser sua enxada na terra instável das emoções. Quando de ti o sangue for vertido, reserva-o num pote transparente pois o sangue não coagula, mas sim resta fresco e vermelho-escuro, resta cheio de todas as suas doenças e vitaminas. Depois rega com ele uma grama, devolve-o para a terra que ela se encarrega de fazer nascer dali uma família de vermes, um pé de hibisco, ou simplesmente o absorve e bebe, devolvendo aos rios e afluentes, que são obviamente feitos do mesmo sangue que você. Tudo isso é vida e é uma delícia.
Faz teus planos singelos ou mirabolantes e acredita neles porque é necessário crer: O galho mais alto, o seguro da areia. O destino sempre vai te mostrar que você estava errada e o quanto é capaz de te surpreender, pro bem e pro mal. Olha só para você, que coisa boa! Cheia de dentes, pernas, cabelos. Olha quanta voz ainda tem para perder, quanta tenacidade para doar ao corpo de homens ruins, quanta flexibilidade para doar ao corpo de homens bons. Por favor, confia em mim que já vivi mais e apenas segue teu caminho. Não há outra maneira, percebe? Apenas segue teu caminho e escolhe a alegria de viver, como sempre escolheu e sempre lhe caiu muito bem. Em teu coração e em tua memória ainda cabem muitos, muitos sentimentos... Uns que você ainda nem sabe que existem, veja só. Que delícia, você já está sorrindo! Sorri meu bem, sorri aberto e gostoso. Sorri e dá gargalhadas, canta um axé, escorrega na lama, toma um banho de chuva sem ficar envergonhada, dança no meio da multidão desconhecida. No meio de teus irmãos, tão desconhecidos, mortais e perecíveis quanto você. A vida, menina, é uma viagem em todos os sentidos. Mas isso a gente só é realmente capaz de entender o que quer dizer depois que um bom tempo passa. E eu sei que não vou te convencer. Mas você já sorriu e já me entendeu, porque tem o coração aberto e os ouvidos atentos.
Agora vou limpar teu dodói com cachaça mineira, segura na minha mão que vai arder, mas passa. Isso, pronto...Até que foi rápido, não foi? Está de parabéns. Agora já pode voltar a brincar.
Faz teus planos singelos ou mirabolantes e acredita neles porque é necessário crer: O galho mais alto, o seguro da areia. O destino sempre vai te mostrar que você estava errada e o quanto é capaz de te surpreender, pro bem e pro mal. Olha só para você, que coisa boa! Cheia de dentes, pernas, cabelos. Olha quanta voz ainda tem para perder, quanta tenacidade para doar ao corpo de homens ruins, quanta flexibilidade para doar ao corpo de homens bons. Por favor, confia em mim que já vivi mais e apenas segue teu caminho. Não há outra maneira, percebe? Apenas segue teu caminho e escolhe a alegria de viver, como sempre escolheu e sempre lhe caiu muito bem. Em teu coração e em tua memória ainda cabem muitos, muitos sentimentos... Uns que você ainda nem sabe que existem, veja só. Que delícia, você já está sorrindo! Sorri meu bem, sorri aberto e gostoso. Sorri e dá gargalhadas, canta um axé, escorrega na lama, toma um banho de chuva sem ficar envergonhada, dança no meio da multidão desconhecida. No meio de teus irmãos, tão desconhecidos, mortais e perecíveis quanto você. A vida, menina, é uma viagem em todos os sentidos. Mas isso a gente só é realmente capaz de entender o que quer dizer depois que um bom tempo passa. E eu sei que não vou te convencer. Mas você já sorriu e já me entendeu, porque tem o coração aberto e os ouvidos atentos.
Agora vou limpar teu dodói com cachaça mineira, segura na minha mão que vai arder, mas passa. Isso, pronto...Até que foi rápido, não foi? Está de parabéns. Agora já pode voltar a brincar.
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
Na hora do amor partido.
Lá se foi outra vez o amor, pegou seu barco fantasma e partiu bruma adentro sem velas, lento... Piano se foi, pianinho em choramingos de quem ficou de coração quebrado, sem olhos ou voz, de quem ficou tão só. É hora de regressar, sair deste cais nebuloso onde jazem todas as ilusões mais bonitas, os planos de vida, as crianças mortas inda no ventre de mulheres vivas. E porque vivas, mortas por dentro, quanto pior, por dentro o buraco ainda mais vazio agora.
Outra vez o amor partiu macio, deixando nas docas o arrepio gélido de uma paixão extinta. De um fogo que recém - deixou de arder. E no frio da ausência que ainda nem é saudade de tão recente, que ainda nem é tristeza de tão chocante, que ainda nem dói por falta de costume do sofrimento, restou incólume aquele coração sempre crente de que ou volta ele ou volta o amor, em novas figuras doces, cheio de carne e sangue, pelo outro lado da cidade onde não há porto, mas há quebra-mar, há revolto mar, o mar bravio das paixões sempre bem-vindas.
O passo, a rua, o continente. A caminhada até o lado oposto a embarcação. Nas costas antes da partida, um sopro úmido de resto de ondas, do branco sal que servirá de cobertura e curtume dos sentimentos. Há de mantê-los ainda degustáveis ao longo do tempo, embora seja necessário passar tempo para curar (nos dois sentidos da palavra).
Baixos olhos, para não ver o amor partir de vez. Mas pompa e prumo, é célebre o fim de um amor. É momento de grande realeza. É quando invertem-se os papéis da boca e dos olhos, que outrora sorridentes brilhos, agora calados inchaços. E segue o vivente rumo à terra, às cavernas rochosas, tudo aquilo que perdura intacto depois do amor partir. Segue o vivente, que seguir é mister, inda que meio morto ou pedaço. Inda que de pernas pesadas e passos doloridos por todo o bem que um amor faz e deixa de fazer. Navegam fantasmas num mesmo imenso oceano os barcos de todos os amores que não perduraram. Se esbarram por vezes, naufragam, lutam entre si - piratas! Repetem-se as personagens com novos atores. E repetem-se sempre as dores de amores, como pragas, algas prolíferas, barreiras de corais coloridos e perigosos de se transpor.
E segue o vivente rumo aos campos, os seguros campos mansos e floridos da solidão. Imensos campos onde se caminha ou se deita e descansa finalmente, eternamente. Onde descansa salgado o vivente, de tanto suor e de tanto (a)mar.
Outra vez o amor partiu macio, deixando nas docas o arrepio gélido de uma paixão extinta. De um fogo que recém - deixou de arder. E no frio da ausência que ainda nem é saudade de tão recente, que ainda nem é tristeza de tão chocante, que ainda nem dói por falta de costume do sofrimento, restou incólume aquele coração sempre crente de que ou volta ele ou volta o amor, em novas figuras doces, cheio de carne e sangue, pelo outro lado da cidade onde não há porto, mas há quebra-mar, há revolto mar, o mar bravio das paixões sempre bem-vindas.
O passo, a rua, o continente. A caminhada até o lado oposto a embarcação. Nas costas antes da partida, um sopro úmido de resto de ondas, do branco sal que servirá de cobertura e curtume dos sentimentos. Há de mantê-los ainda degustáveis ao longo do tempo, embora seja necessário passar tempo para curar (nos dois sentidos da palavra).
Baixos olhos, para não ver o amor partir de vez. Mas pompa e prumo, é célebre o fim de um amor. É momento de grande realeza. É quando invertem-se os papéis da boca e dos olhos, que outrora sorridentes brilhos, agora calados inchaços. E segue o vivente rumo à terra, às cavernas rochosas, tudo aquilo que perdura intacto depois do amor partir. Segue o vivente, que seguir é mister, inda que meio morto ou pedaço. Inda que de pernas pesadas e passos doloridos por todo o bem que um amor faz e deixa de fazer. Navegam fantasmas num mesmo imenso oceano os barcos de todos os amores que não perduraram. Se esbarram por vezes, naufragam, lutam entre si - piratas! Repetem-se as personagens com novos atores. E repetem-se sempre as dores de amores, como pragas, algas prolíferas, barreiras de corais coloridos e perigosos de se transpor.
E segue o vivente rumo aos campos, os seguros campos mansos e floridos da solidão. Imensos campos onde se caminha ou se deita e descansa finalmente, eternamente. Onde descansa salgado o vivente, de tanto suor e de tanto (a)mar.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Segredos de vida breve - ou - Vida de mãe no cárcere.
Fui presa injustamente aos vinte e três anos, grávida de duas semanas de um homem que guardava drogas embaixo do mesmo colchão velho em que me tinha com violência nas noites de bebedeira. Eu não posso dizer que não sabia. Sabia sim, mas era ele quem botava o de comer na mesa e eu nunca tive peito de negar. Ainda mais agora, com criança no bucho. Disseram-me cúmplice. Fui algemada sem resistir, embora chorasse muito. " Estou grávida, pelo amor de Deus não me batam" - disse eu. "Devia apanhar mais ainda por colocar mais uma criança no mundo, sua vagabunda" - respondeu a agente carcerária. Me calei. Ela estava certa. Eu não queria ter pegado barriga de novo, já tinha tirado dois naquele mesmo ano, eu tomei tudo que foi remédio pra tentar tirar. Mas a menina vingou, não quis sair do bucho de jeito nenhum, fui internada passei mal, sangrei. E ainda assim la ficou a bichinha, coitadinha. Ela já devia saber que sua companhia era o que ia me salvar da imensa solidão do primeiro ano e meio de gaiola.
Minha menina só me trouxe sorte. Por estar grávida, tive direito (é verdade, pela primeira vez na vida entendi o que era ter direito à algo) de ficar em uma prisão especial, um lugar agradável com camas limpas e espaço ao ar livre. Foram nove meses de paz. Tão boazinha minha neném. Quando me via entediada, dava chutezinhos, me causava um enjôo, uma dor qualquer que me lembrava que eu estava viva e de que era necessário estar viva. Mais por ela que por mim, é verdade, por ela eu tinha razão agora para ter vontade de continuar.
Nasceu dia 16 de dezembro de 1999. Sagitariana como minha mãe. Foi um parto tranquilo, não deixei ninguém me dar anestesia nem nada, queria sentir cada arrepio de dor que ela me causasse, a carne rasgando para ela sair. Mas a minha menina era tão boazinha que achou que de doída já bastava a minha vida e simplesmente nasceu como quem desliza em um escorregador, nasceu brincando, eu tive umas contrações, fui para o leito, veio a médica e a segurou numa manobra rápida, quase que a pequenina cai no chão de tão miúda. Chorou um chorinho manso, agudinho, e aquele choro foi mais que música. Aquele choro da minha filhinha me fez chorar de alegria também. Depois disso, eu sabia, teria apenas seis meses com ela, antes que fosse entregue a familiares ou adoção. A partir daquele instante, cada dia era um dia a menos, cada dia era uma chance única de amar. E nos tornamos tão cúmplices!Eu tinha tanto leite! Contei mil vezes a ela toda a história de como tínhamos ido parar lá na prisão, da sorte que ela tinha me trazido, do amor que tinha me ensinado. Havia uns livrinhos numa biblioteca que podíamos usar e todos os dias eu lia pra ela, sempre fui muito boa em leitura e escolhia para contar-lhe as historinhas mais bonitas. Histórias mais bonitas que a nossa, para que ela soubesse que apesar de a minha vida ter se guiado daquele modo torto, a dela poderia ser bem melhor. Eu desejava pra ela uma vida tão imensamente melhor!
Os meses passavam rápido demais, as horas eu contava, vigiava, querendo segurar os segundos, querendo que os relógios atrasassem, o tempo parasse, alguma lei mudasse e eu pudesse tê-la por mais tempo junto a mim. Me desesperava não saber se alguém de minha família poderia ficar com ela. No primeiro mês de vida perdeu o pai. Foi assassinado dentro de casa, a facadas, por um policial que ficou sem o pagamento. Graças a Deus, pensei, não estávamos lá. Senão também nós teríamos morrido, ela não ia nem ter tido o direito de viver. Que sorte minha menina me trouxe, foi Deus quem quis assim.
Já com dois meses de mãe e filha, eu ainda não tinha um nome para dar-lhe. Chamava-a de minha menina, minha neném, meu amor, meu amor. Pensava em Vitória, mas já conhecia duas bebês chamadas Vitória, filhas de colegas de cárcere. Pensava nuns nomes de artistas, de personagens de novela, mas nenhum parecia dar conta daquilo que era muito provavelmente a única coisa que eu poderia dar a ela em toda nossa breve vida juntas. Um dia, vi um filme estrangeiro e nos créditos finais achei o nome da minha rebenta: Linda.
Não havia nome melhor. "Linda, minha filha, é o que você é, o que espero de tua vida e de tua sorte". Registrei-a apenas Linda da Silva. O nome do pai não carecia. Também não batizei, porque queria que ela fosse livre para escolher sua religião, sei lá, as igrejas às vezes são cruéis com as pessoas. Não, a minha menina vai saber de si.
Quando ela estava com cinco meses de vida, nós duas somando um ano e dois meses de cárcere, decidiram que ela teria que ir para adoção, já que eu não tinha ninguém na família que pudesse ficar com ela. Minha irmã com seis em casa, meu irmão morando em Ilhéus, na Bahia. Minha mãe morava com minha irmã. Elas até tentaram, mas não puderam pegar por falta de condições, a assistente social foi lá para dar o atestado e quase que leva dois da penquinha da minha irmã embora. Uma miséria desgraçada, e eu fiquei sem a minha companheira. Sem o meu amor, sem sorte.
" Minha filha, já fazem seis meses que você nasceu. Hoje eles vêm te buscar. São oito e meia da manhã e dentro de meia hora a mamãe vai te colocar aquele vestidinho amarelo que você adora e vai dar você para a moça levar. Lembra aquela moça boazinha que de vez em quando te traz presente? Bem, você vai com ela. Eu vou colocar na mala a sua chupeta, seu mamá e a bonequinha de pano vai contigo. Eu vou ficar por aqui e esperar a morte chegar. Eu só existi enquanto estive contigo, meu amor. Apenas por ti eu vivi. Agora o ponteiro andou mais um pouco, falta menos. Deixa eu te cheirar, todas as dobrinhas, eu queria tanto guardar este cheiro num pano. Posso ficar com teu paninho? Obrigada meu amor, você sempre tão boazinha com a mamãe. Vou te cantar a sua canção pela última vez: Linda, te sinto mais bela... te fico na espera, me sinto tão só, mas o tempo que passa... - Desculpa se a mamãe perdeu o ritmo. É que eu estou engasgada. Não filhinha, não chora. Você vai ser adotada por uma família rica, vai ter a chance de estudar, de ter a vida que mamãe não teve. Vai ter um homem bom para ser feliz com ele, vai ter meus netos lindos e bons como você foi para mim. Mas você não vai se lembrar de mim, o que vai ser bom, para não sofrer. Mesmo porque, não precisa lembrar, não vai valer de nada. Assim que você se for a mamãe vai morrer, mas não se preocupe, eu não estou triste, estou agradecida. Eu só vivi por ti e para ti. Minha vida durou este ano e meio, e eu fui a pessoa mais feliz na Terra. Eu sim, fui feliz. Morro realizada por cada sorriso teu. A porta abriu, está na hora. Eu já comecei a sangrar meus últimos suspiros de vida. Não neném não chora. Cuidado com ela, cante para ela dona moça, leia uma historinha. Ela gosta de bichos, ela é uma menina muito boa, não entrega ela pra qualquer um, viu? Viu dona moça, ei! Ei! Eu estou falando com você, pelo amor de Deus eu imploro, me deixa ficar com ela, deixa... Não dá ela pra ninguém ruim, por favor, deixa ela com uma familia boa! Filha, filha! Linda, eu só vivi por ti. Você me salvou meu amor! Eu te amo, não chora, eu te amo demais. Moça, o nome dela é Linda da Silva, leva o registro dela, eu fiz tudo certinho, leva. Leva meu coração, atravessa a grade e leva. Filha, você vai conhecer o mundo lá fora, o mundo é uma coisa linda como você. O mundo vai ser bom contigo, meu amor. "
A grade fechou. Que luz é aquela? É Deus, veio com seus anjos de luz! Me leva, Senhor, me leva. Que ao menos esta dor passe, me leva pra morar no céu. Me leva que eu vivi na Terra por um ano e meio e hoje eu quero morrer. Traz na tua bondade o perdão pelos males que devo ter causado, mesmo queredo sempre seguir o caminho do bem. Me carrega logo, me tira deste corpo pesado onde bate um coração e onde um ventre um dia gerou a coisa mais bonita que o senhor colocou no mundo.
Me leva, Pai. Já é hora. Eu já fui feliz.
Minha menina só me trouxe sorte. Por estar grávida, tive direito (é verdade, pela primeira vez na vida entendi o que era ter direito à algo) de ficar em uma prisão especial, um lugar agradável com camas limpas e espaço ao ar livre. Foram nove meses de paz. Tão boazinha minha neném. Quando me via entediada, dava chutezinhos, me causava um enjôo, uma dor qualquer que me lembrava que eu estava viva e de que era necessário estar viva. Mais por ela que por mim, é verdade, por ela eu tinha razão agora para ter vontade de continuar.
Nasceu dia 16 de dezembro de 1999. Sagitariana como minha mãe. Foi um parto tranquilo, não deixei ninguém me dar anestesia nem nada, queria sentir cada arrepio de dor que ela me causasse, a carne rasgando para ela sair. Mas a minha menina era tão boazinha que achou que de doída já bastava a minha vida e simplesmente nasceu como quem desliza em um escorregador, nasceu brincando, eu tive umas contrações, fui para o leito, veio a médica e a segurou numa manobra rápida, quase que a pequenina cai no chão de tão miúda. Chorou um chorinho manso, agudinho, e aquele choro foi mais que música. Aquele choro da minha filhinha me fez chorar de alegria também. Depois disso, eu sabia, teria apenas seis meses com ela, antes que fosse entregue a familiares ou adoção. A partir daquele instante, cada dia era um dia a menos, cada dia era uma chance única de amar. E nos tornamos tão cúmplices!Eu tinha tanto leite! Contei mil vezes a ela toda a história de como tínhamos ido parar lá na prisão, da sorte que ela tinha me trazido, do amor que tinha me ensinado. Havia uns livrinhos numa biblioteca que podíamos usar e todos os dias eu lia pra ela, sempre fui muito boa em leitura e escolhia para contar-lhe as historinhas mais bonitas. Histórias mais bonitas que a nossa, para que ela soubesse que apesar de a minha vida ter se guiado daquele modo torto, a dela poderia ser bem melhor. Eu desejava pra ela uma vida tão imensamente melhor!
Os meses passavam rápido demais, as horas eu contava, vigiava, querendo segurar os segundos, querendo que os relógios atrasassem, o tempo parasse, alguma lei mudasse e eu pudesse tê-la por mais tempo junto a mim. Me desesperava não saber se alguém de minha família poderia ficar com ela. No primeiro mês de vida perdeu o pai. Foi assassinado dentro de casa, a facadas, por um policial que ficou sem o pagamento. Graças a Deus, pensei, não estávamos lá. Senão também nós teríamos morrido, ela não ia nem ter tido o direito de viver. Que sorte minha menina me trouxe, foi Deus quem quis assim.
Já com dois meses de mãe e filha, eu ainda não tinha um nome para dar-lhe. Chamava-a de minha menina, minha neném, meu amor, meu amor. Pensava em Vitória, mas já conhecia duas bebês chamadas Vitória, filhas de colegas de cárcere. Pensava nuns nomes de artistas, de personagens de novela, mas nenhum parecia dar conta daquilo que era muito provavelmente a única coisa que eu poderia dar a ela em toda nossa breve vida juntas. Um dia, vi um filme estrangeiro e nos créditos finais achei o nome da minha rebenta: Linda.
Não havia nome melhor. "Linda, minha filha, é o que você é, o que espero de tua vida e de tua sorte". Registrei-a apenas Linda da Silva. O nome do pai não carecia. Também não batizei, porque queria que ela fosse livre para escolher sua religião, sei lá, as igrejas às vezes são cruéis com as pessoas. Não, a minha menina vai saber de si.
Quando ela estava com cinco meses de vida, nós duas somando um ano e dois meses de cárcere, decidiram que ela teria que ir para adoção, já que eu não tinha ninguém na família que pudesse ficar com ela. Minha irmã com seis em casa, meu irmão morando em Ilhéus, na Bahia. Minha mãe morava com minha irmã. Elas até tentaram, mas não puderam pegar por falta de condições, a assistente social foi lá para dar o atestado e quase que leva dois da penquinha da minha irmã embora. Uma miséria desgraçada, e eu fiquei sem a minha companheira. Sem o meu amor, sem sorte.
" Minha filha, já fazem seis meses que você nasceu. Hoje eles vêm te buscar. São oito e meia da manhã e dentro de meia hora a mamãe vai te colocar aquele vestidinho amarelo que você adora e vai dar você para a moça levar. Lembra aquela moça boazinha que de vez em quando te traz presente? Bem, você vai com ela. Eu vou colocar na mala a sua chupeta, seu mamá e a bonequinha de pano vai contigo. Eu vou ficar por aqui e esperar a morte chegar. Eu só existi enquanto estive contigo, meu amor. Apenas por ti eu vivi. Agora o ponteiro andou mais um pouco, falta menos. Deixa eu te cheirar, todas as dobrinhas, eu queria tanto guardar este cheiro num pano. Posso ficar com teu paninho? Obrigada meu amor, você sempre tão boazinha com a mamãe. Vou te cantar a sua canção pela última vez: Linda, te sinto mais bela... te fico na espera, me sinto tão só, mas o tempo que passa... - Desculpa se a mamãe perdeu o ritmo. É que eu estou engasgada. Não filhinha, não chora. Você vai ser adotada por uma família rica, vai ter a chance de estudar, de ter a vida que mamãe não teve. Vai ter um homem bom para ser feliz com ele, vai ter meus netos lindos e bons como você foi para mim. Mas você não vai se lembrar de mim, o que vai ser bom, para não sofrer. Mesmo porque, não precisa lembrar, não vai valer de nada. Assim que você se for a mamãe vai morrer, mas não se preocupe, eu não estou triste, estou agradecida. Eu só vivi por ti e para ti. Minha vida durou este ano e meio, e eu fui a pessoa mais feliz na Terra. Eu sim, fui feliz. Morro realizada por cada sorriso teu. A porta abriu, está na hora. Eu já comecei a sangrar meus últimos suspiros de vida. Não neném não chora. Cuidado com ela, cante para ela dona moça, leia uma historinha. Ela gosta de bichos, ela é uma menina muito boa, não entrega ela pra qualquer um, viu? Viu dona moça, ei! Ei! Eu estou falando com você, pelo amor de Deus eu imploro, me deixa ficar com ela, deixa... Não dá ela pra ninguém ruim, por favor, deixa ela com uma familia boa! Filha, filha! Linda, eu só vivi por ti. Você me salvou meu amor! Eu te amo, não chora, eu te amo demais. Moça, o nome dela é Linda da Silva, leva o registro dela, eu fiz tudo certinho, leva. Leva meu coração, atravessa a grade e leva. Filha, você vai conhecer o mundo lá fora, o mundo é uma coisa linda como você. O mundo vai ser bom contigo, meu amor. "
A grade fechou. Que luz é aquela? É Deus, veio com seus anjos de luz! Me leva, Senhor, me leva. Que ao menos esta dor passe, me leva pra morar no céu. Me leva que eu vivi na Terra por um ano e meio e hoje eu quero morrer. Traz na tua bondade o perdão pelos males que devo ter causado, mesmo queredo sempre seguir o caminho do bem. Me carrega logo, me tira deste corpo pesado onde bate um coração e onde um ventre um dia gerou a coisa mais bonita que o senhor colocou no mundo.
Me leva, Pai. Já é hora. Eu já fui feliz.
Assinar:
Postagens (Atom)