terça-feira, 9 de agosto de 2011

Se eu soubesse

Se eu soubesse do que como, não negaria um pedaço
Se eu soubesse por onde ando, daria as diretrizes
Se eu soubesse do que quero, eu pegaria no laço
Se eu soubesse do que bebo, não mais diria tolices
Se eu soubesse dos perigos, não me lançava ao mar
Se eu soubesse o que há na noite, só viveria de dia
Se eu soubesse da vida, ai, se eu soubesse!
Seria difícil fazer poesia...

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Na presença do mestre.

Há quanto tempo, ainda que ausente em corpo, acompanhas cada um de meus passos.
Sabes tudo de mim e por inúmeras vezes já narrastes minha vida, dìtastes o andamento de minhas paixões e das piores perdas, as mais tristes e foi sempre em tuas palavras de amor ou de adeus que eu encontrei alento. Até mesmo da morte já me salvastes em vida. Há quanto tempo, desde que para mim o mundo é mundo, eu penso em ti diariamente querendo ou sem querer. Pois era sua a canção que minha mãe cantava para embalar-me ao berço, e do mesmo modo eu embalei minha irmã mais nova e meus doze primos e um dia eu hei de embalar um filho meu. Eu te digo sim e te escolho, eu busco seu nome dentre tantos para alegrar meu dia, eu solto ao ar suas palavras, eu te roubo, eu te gasto, eu te escravizo quando me tocas profundamente e ali você permanece cantando ou contando causos, incessantemente, até que tuas palavras entrem em meu peito de forma que seja impossível tirá-las. Eu te apreendo... E deste modo já me causastes as emoções mais lindas e as mais feias e continuas.
Agradeço a Deus pela sua saúde e por sua inspiração infinita (este milagre que ocorreu num Rio de Janeiro de tantos mistérios). Agradeço diante da imensidão do tempo, das eras, dos séculos, por compartilhar uma época contigo, um país, uma cidade. Isso tudo já me bastaria, eu já viveria a te cantar por aí a plenos pulmões na certeza de que professava as palavras de um sabedor das coisas.
Mas ontem, meu mestre, você foi me aparecer. E virou gente, teve carne, osso e olhos para mim. Disse meu nome, me apontou, me tocou no ombro antes de ir embora com um gesto de carinho. E diante de ti, silêncio. Diante de ti, nenhuma palavra. As palavras são suas e meus os ouvidos, diante de ti alegria de aprendiz, porque falas apenas a língua sagrada dos poetas e dos passarinhos, és um bruxo, um monstro, mas acima disso és um homem simples e do bem.
Diante de ti meu mestre, boca para sorrir e mãos para aplaudir. Nem nos meus sonhos mais absurdos eu poderia imaginar um privilégio tão grande. Se minha jornada terminasse de repente e hoje eu partisse deste mundo, eu iria feliz, eu juro. Subiria aos céus dançando, embalada por um canto seu.
Na sua presença meu mestre, quanta gratidão!

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Venha, meu samba.

Venha, me socorra
Hoje eu preciso aprender a viver.
Venha meu samba adorado
Traga seus poetas,
Salve mais um afogado
Como Drummond ensina a fazer

- Engrosse este ar que me envolve rarefeito teimando em não preencher os pulmões e por isso são só suspiros fundos e expiros em melodias: valsas, modas, lamentos. Já são boleros demais para este pobre coração, venha meu samba e traga seus versos e batucadas! -


Conforme esta veia de escárnio,
Tire o mundo de meu umbigo
Diga que isso já se passou contigo e com tantos outros mais.
Venha meu samba, me ensine a viver de si e por si só
Reze que são tantos e imensos os seus amores
Que te não surpreenderia ademais
Serem tão miseráveis os poetas,
Quando tão errados os casais.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Com meu botões.

Assim que o céu cobrir de fino tule seu breu, logo nos primeiros pontos de madrugada eu vou...

Embora aos poucos e com preguiça descosturar os tecidos grudados até então, fiapo por fiapo, prega por prega. Com calma recolher as pedaços de pano abandonados no caminho, escorrer novamente e quem sabe pela última vez a fazenda macia sobre o antebraço, sentir o peso e a boa textura que possui, o que ela causa na pele. Entre os dedos acarinhar as franjas escuras, mechas de melindrosa fantasia de um efêmero carnaval, os penachos, sentir-lhes o cheiro. Levar talvez um fio grudado no sapato.
Desenrolar um carretel inteiro de barbante de uma só vez, gastar verbo, há tantas histórias para contar. Ver o fim da linha, o derrubar voado do carretel, encerrar tudo isso num bordado multicolorido: ponto-cruzes credo, renda-se de bilro, umas lantejoulas latejantes.
Olhar para o ateliê desarrumado, ouvir o bater seco de portas atrás.

Assim que o céu cobrir de rude chita seu clarão, logo nos primeiros pespontos de arremate, eu volto...

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Implacável

Guarda em teus olhos a calma que possuías antes de me conhecer, aquieta tua alma terna e carinhosa, aquieta teu espírito que amor nenhum vale uma dor tão profunda. Recupera naquela admiração por flores e melodias a beleza de um amor vivente, a beleza de saber que sempre há, invariável e insuperavelmente, um novo amor. Abraça teu instrumento onde antes havia meu corpo cantante, busca nele a guarida, compõe uma nova história
- pacifica por favor teu coração! - que todo fim é em tempo o começo também.
É certo, logo vem um novo amor.
E este novo amor, acredita, também virá belo e eterno em sua imperfeição, será tudo em seu dia longo, será devoção e alegria... Aos bocados vai encher a casa de perfume, vai te deixar acordado ainda que com sono, vai te preocupar profundamente com o tamanho dos cômodos e sobre a reforma quando os filhos vierem.
E depois de certo tempo, sendo este novo amor vivido, também ele passará, invariável e insuperavelmente, doerá no fundo da alma por uns dias ou anos e tornar-se-á cada vez menos profundo e mais desbotado, até que num porre ou numa benção seja exorcizado de sí, até que passe.

O tempo, este Deus de tudo sabedor.

Guarda em teus olhos a calma que possuías, pois eu não pretendia te privar de nada nem tampouco desejei o fim de tudo, eu até tentei muito. Mas o fim quando vem é inevitável, a morte é na vida a única certeza, assim como é certo o fim de um amor que ficou mal de saúde, que se perdeu num labirinto de dúvidas, que se enganou inocente. Um amor qualquer como o amor da gente, que foi tão bonito e tanto me fez feliz.
Aquieta tua alma, faz um chá. Olha pra televisão como se fizesse sentido, ri a tôa por alguma besteira, é como tenho feito. Fuma alguma coisa, cozinha algo demorado, ajuda o tempo a passar mais depressa, que o tempo não tarda ainda que amanhã demore, ainda que sofra mais um pouquinho e uma lágrima corra molhando teu belo rosto. Lava tua linda face com uma água boa de cachoeira que amor vem chegando, em algum lugar deste mundo afora ele vem caminhando em sua direção, espreita, faz tocaia silencioso e mais hora menos hora te toma de assalto.
E eu, com minhas palavras vazias espero com paciência este teu amor chegar e me doer, me açoitar sem pena e rir da minha cara como quem diz : foi você quem me deixou, foi você quem zombou deste amor e agora pena a tua dor sozinha ou com teus amigos do bar, com teus livros ensebados.

O tempo, este Deus implacável (ou como aprendi hoje comendo um dicionário - aquele que não perdoa).

terça-feira, 12 de julho de 2011

Uma cigana.

Cruzou a cigana comigo, me pediu a mão em troca de nada. Trazias notícias de vidas passadas, oráculo preciso do mistério: - Vem minha filha, deixa eu ler tua mão.
Eu relutante mas ainda mais curiosa, espalmei.
Olhou atenta minha mão direita, tornou olhar. Eu sabia por quê ela se questionava. Não esperava encontrar em minha palma uma cicatriz tão profunda que rasga do mindinho ao dedão.
Olhou-me com seus olhos negros profundos e desolada me disse apenas que se havia destino para mim traçado, a própria vida já havia tratado de desfazer as linhas, espalhá-las, mas sem que as reorganizasse. A cigana temeu por minha sorte, eu vi em seus olhos o que ela não havia sido capaz de enxergar em minha mão. Pobre diaba, apenas atravessei a rua e continuei minha caminhada em direção a lugar nenhum.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Ócio criativo

O dia todo eu só lembrava, mas de tanto me esforçar consegui esquecer.
Por 60 segundos fiz outra coisa e escrevi duas linhas sem pensar em você.