quarta-feira, 13 de março de 2013

Sem Poesia

Quero cantar mas não posso
Trago em mim uma focinheira
Meus ferimentos expostos
E um coração de espinheira.

Uns amores, uns remorsos
E uma canseira comprida
Que tornaram em destroços
Tantas certezas da vida

O meu sonho é uma cascata
Com queda em solo duro
É um pássaro que alçando as asas
Pára de encontro ao muro

Quero cantar, mas não posso
Ninguém mais liga pros poetas
E sem poesia, como acordar pro dia?
Como manter a espinha ereta?

quarta-feira, 6 de março de 2013

Intransitiva

Solidão, palavra líquida
Que nem palavra a si se basta
É tão vazia que quase fria
Tem tanto amor, que quase vaza.

Estar-se só, sem companhia
É mais que rude pleonasmo
Tamanha dor até sacia
Quando um é só, acompanhado

- Amar-te assim: um pirilampo na escuridão deixando rastro
Ou ver sumir no eco escuro o som das trovas que eu faço -

Pois solidão fosse ela verbo
Seria verbo intransitivo
Tem o sentido exato e certo
E leva o sujeito sempre consigo.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Naval

E quando eu na noite brado:
Seja você sempre forte!
É que no escuro do quarto
Temo demais a morte

Grito como quem desteme
Ao encarar a maré brava
Desvencilhar do leme
A sua própria sorte.

Se eu brado soluçando
Em frente ao populacho
Digo-lhes as coordenadas
Mas nunca a mim me acho!

A bombordo sonhos verdes
A estiva branca espuma
Sou apenas marinheiro
Que nas águas se perfuma

Nas marés infindas sumo
Nas ressacas me desmancho
Nas areias me espalho
Nas manhãs sussurro manso

E nos cardumes de anseios
Que rimam com despedida
Meu casco é partido ao meio
Antes mesmo da partida.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Chororô

Chorei de inchar os olhos,
De secar garganta, de jorrar o sangue
Chorei de lavar a alma,
De ter dó da gente, de rolar na lama
Chorei porque foi pecado,
E da maldade que fez o amor
Chorei choro de tristeza
E de saudade do que passou
Chorei por não haver jeito,
Só ver defeito em tudo o que fiz
Chorei, pois chora quem ama
Sem ser capaz de viver feliz
Chorei de mãos e pés atados
Peito amarrado na dor sem fim
Chorei de envelhecer a alma
Que um dia foi jovem dentro em mim
Chorei e foi tão grande meu pranto
Que nem me lembro por que começou
Mas a tristeza foi tomando conta
E quando eu vi, ela me derrubou
Chorei um choro de criança
E cada lágrima tinha razão
Ou se não tinha, virava uma lança
Que mais feria o meu coração
Eu chorei, chorei, eu confesso
E não queria mais chorar assim
Pois não sei se quando choro, despeço
Ou planto mais dor por dentro de mim
Se ao menos meu pranto regasse
Em meu peito um vasinho de flor
Mais belo seria o meu choro

(Seria um chorinho de amor,
Seria um choro perfumado
Um choro louvando o Senhor
E não este choro salgado
Este mar que meu pranto virou)

Mas foi só choro de tristeza
E toda a tristeza tem que se acabar
Que é de toda gente a natureza
Nunca querer sofrer ou se entregar
Em meus olhos inchados só resta
Deste tal chororô um ardor
E uma inspiração que atesta:
Sou poetisa das dores de amor
Mas faço poema se for de alegria,
Bem como por ela sei chorar também
Quem sabe chorar seja a fantasia
Da melancolia que me cai tão bem
Chorando eu me torno mais gente de carne
O corpo amolece, o espírito cresce
E toda armadura de mim se descola
Eu volto pra Deus e o pranto é prece
Quem nunca chorou não entende o que digo
Pois é meu amigo, chorei e foi isso
Eu não sei falar, é por isso que escrevo
Eu só sei chorar pelo tanto que vivo.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Terceiro Delírio - Os Tenores


Caminhava por um campo verde, mas não era grama. Tive a sensação de estar em Itaimbezinho, no Rio Grande do Sul, embora o clima não sugerisse o mesmo ponto geográfico. Pegava um pedaço de papelão como fazia nas brincadeiras de minha infância, e descia barranco abaixo de modo suave, como quem desce um tobogã, sem ferir-me ou levar susto. O rolimã improvisado estacionava a beira de uma água doce. Do meu lado esquerdo, vinha um canto suave em voz masculina. Tenores.
Carolina, você não entende nada de música. Mas eram tenores, estava certa, pela sensação que causavam nas papilas gustativas.
Mirei-me no pequeno riacho, muito limpo. Parecia água morna, pelo azul que tinha - um azul meio verde-água - pois no espelho que formava eu via refletido todo o verde claro das costas do cânion. Quando ia despir-me ao som daquela melodia natural, daquela melodia que parecia brotada do fundo das pedras e lavar-me no riacho, eis que a água se move. Olhei para os lados contrariada, estava sozinha ainda que observadora de mim mesma, eu e meu duplo, como veriam os Jurunas.
A água começou então a borbulhar. Isto é fenômeno comum nos cânions, Carolina. Mas deste borbulho agora é que brotava a melodia, o doce canto dos tenores. Era um bailado de bolhas, cada vez mais intenso e flutuante, algumas subiam por metros e estouravam em notas que se juntavam no ar em contacantos. E dançavam, e dançavam. Minha cabeça girava e o corpo já não estava bem ali. Não sabia se também eu voava, ou se era o corpo todo feito de música. Fui sendo levada sem perceber para cada vez mais perto da água. Carolina, você não sabe nadar. Mas era como se soubesse nadar, ou se dançar bastasse para flutuar e imergir sem perigo. Afundei, mas ainda ouvia música. Abri os olhos muito depois, já debaixo d’água e lá estavam os tenores, todos eles, com seus olhos de membranas, dentes afiados, e rabos de peixe.
Havia caído no canto dos sereios. Quando o ar me faltou, desfaleci no colo do mais moreno deles e veio aquele clarão.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Segundo Delírio - Boi, boi, boi.

Brincávamos de desviar da rasante dos morcegos que viviam no forro, quando um forte barulho veio do andar de baixo. Debrucei-me na grade de madeira podre e bamba do mezanino, mas nada vi a não ser a mesa de bilhar e os sofás um pouco fora dos seus lugares habituais. De repente, gritaria. Portas bateram, vidros caíram e minha tia muito nervosa tentava chamar-nos do lado de fora da outra janela, aquele lado dos morcegos.
Todos tinham olhos duros de espanto e surpresa.
Tornei olhar para baixo pela grade do mezanino e lá estava um enorme touro preto, de chifres pontiagudos, bufando de um lado pro outro. Devia ter entrado sem querer numa corrida e não conseguia sair da casa, pensei. Mas o touro tinha uma fúria violenta, tomava distancia antes de se lançar certeiro com os chifres sobre a mesa, os sofás, os objetos todos, que em segundos se tornavam destroços.
Nossos olhares se cruzaram por um instante, o meu e o da besta-fera: mataram meu filhote, disse ele. Mataram meu filhote mais manso. Eu com medo e piedade disse que sentia muito, mas que, por favor ele parasse com aquilo, pois não éramos culpados de nada.
Disse-lhe que essa era a natureza das coisas.
O touro pareceu acalmar-se, e parou com a cabeça baixa. Então novamente virou seu olhar em direção ao meu e pedindo com uma calma enternecedora disse: Você está certa, menina. É a natureza das coisas. Desce aqui que eu quero que você me leve até o pasto, não consigo sair com a porta fechada.
Sob os gritos das outras crianças, que não estavam entendendo nada, desci a escada ofegante, com minhas pequenas pernas infantis. Caminhei diretamente para a porta e coloquei minha mãozinha branca no trinco. Ouvindo os passos do animal vindo em minha direção, respirei fundo e virei para olhá-lo, de costas para a porta ainda fechada. O bicho tinha mais de três vezes o meu tamanho e seus chifres eram como punhais de ossos retorcidos. Olhou-me fundo nos olhos. Entenderão seus pais, menina, que esta sim é a natureza das coisas.
Deu dois passos para trás e mirou minha barriga. Com o estrondo da porta de madeira se despedaçando atrás de mim, veio aquele clarão. E aquela canção.

“Boi, boi, boi... Boi da cara preta...”

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Um Delírio - A caça e seus filhotes.

Pintou-se assim: Caminhava procurando alguma coisa, lugar ou pessoa por um chão vermelho que fazia dégradé até o alaranjado do céu. Pensei que estava no norte do Brasil. Aos poucos surgiam sons de tambores e cantos, que eu por alguma razão achava que era uma congada, embora a paisagem não sugerisse o mesmo ponto geográfico. Sem dúvida estava no Brasil.
Pelo meu lado direito passava um batalhão de homens montados a cavalo, todos vestidos de branco, com estandartes e grandes chapéus também sempre brancos. Percebia que o som saía deles. Olhava estática aquela passagem, um pouco contrariada, e depois virava e voltava correndo por onde eu tinha vindo, mas desta vez reparava que o chão era escorregadio, de barro liso e vermelho, muito molhado. Eu corria e escorregava naquele chão, descalça. O barro entrava nos vãos dos dedos, nas unhas e nas canelas e secava instantes depois. Logo meus pés estavam mumificados como um boneco de mestre Vitalino. Em segundos eu era uma boneca por inteiro, mas continuava correndo e pensando.
Não muito longe avistava uma pequena ponte na trilha a esquerda de uma encruzilhada e quando ia passar por ela e lavar os pés no alagado de água limpa e transparente que havia sob ela, uma moça me avisava para ter cuidado porque havia um jacaré ali escondido. Eu não tenho medo de jacaré, pensava.
Subia na ponte receosa, e olhava para a face do alagado. De lá de cima, via com muita ternura uma capivara com seu filhote, um jacaré com seu filhote e mais um animal que acho que era um leão com seu filhote, mas não lembro bem. Não devia ser um leão pelo ponto geográfico, mas foi a sensação que tive. Achei-os bonitinhos e fiquei com vontade de pegar a capivara no colo. Carolina, deixe a caça com seus filhotes.
Quando baixava minhas mãos secas de boneca de barro para tocar a água e diluir-me por inteiro, veio aquele clarão. Voltei.