Brincávamos de desviar da rasante dos morcegos que viviam no forro, quando um forte barulho veio do andar de baixo. Debrucei-me na grade de madeira podre e bamba do mezanino, mas nada vi a não ser a mesa de bilhar e os sofás um pouco fora dos seus lugares habituais. De repente, gritaria. Portas bateram, vidros caíram e minha tia muito nervosa tentava chamar-nos do lado de fora da outra janela, aquele lado dos morcegos.
Todos tinham olhos duros de espanto e surpresa.
Tornei olhar para baixo pela grade do mezanino e lá estava um enorme touro preto, de chifres pontiagudos, bufando de um lado pro outro. Devia ter entrado sem querer numa corrida e não conseguia sair da casa, pensei. Mas o touro tinha uma fúria violenta, tomava distancia antes de se lançar certeiro com os chifres sobre a mesa, os sofás, os objetos todos, que em segundos se tornavam destroços.
Nossos olhares se cruzaram por um instante, o meu e o da besta-fera: mataram meu filhote, disse ele. Mataram meu filhote mais manso. Eu com medo e piedade disse que sentia muito, mas que, por favor ele parasse com aquilo, pois não éramos culpados de nada.
Disse-lhe que essa era a natureza das coisas.
O touro pareceu acalmar-se, e parou com a cabeça baixa. Então novamente virou seu olhar em direção ao meu e pedindo com uma calma enternecedora disse: Você está certa, menina. É a natureza das coisas. Desce aqui que eu quero que você me leve até o pasto, não consigo sair com a porta fechada.
Sob os gritos das outras crianças, que não estavam entendendo nada, desci a escada ofegante, com minhas pequenas pernas infantis. Caminhei diretamente para a porta e coloquei minha mãozinha branca no trinco. Ouvindo os passos do animal vindo em minha direção, respirei fundo e virei para olhá-lo, de costas para a porta ainda fechada. O bicho tinha mais de três vezes o meu tamanho e seus chifres eram como punhais de ossos retorcidos. Olhou-me fundo nos olhos. Entenderão seus pais, menina, que esta sim é a natureza das coisas.
Deu dois passos para trás e mirou minha barriga. Com o estrondo da porta de madeira se despedaçando atrás de mim, veio aquele clarão. E aquela canção.
“Boi, boi, boi... Boi da cara preta...”
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
Um Delírio - A caça e seus filhotes.
Pintou-se assim: Caminhava procurando alguma coisa, lugar ou pessoa por um chão vermelho que fazia dégradé até o alaranjado do céu. Pensei que estava no norte do Brasil. Aos poucos surgiam sons de tambores e cantos, que eu por alguma razão achava que era uma congada, embora a paisagem não sugerisse o mesmo ponto geográfico. Sem dúvida estava no Brasil.
Pelo meu lado direito passava um batalhão de homens montados a cavalo, todos vestidos de branco, com estandartes e grandes chapéus também sempre brancos. Percebia que o som saía deles. Olhava estática aquela passagem, um pouco contrariada, e depois virava e voltava correndo por onde eu tinha vindo, mas desta vez reparava que o chão era escorregadio, de barro liso e vermelho, muito molhado. Eu corria e escorregava naquele chão, descalça. O barro entrava nos vãos dos dedos, nas unhas e nas canelas e secava instantes depois. Logo meus pés estavam mumificados como um boneco de mestre Vitalino. Em segundos eu era uma boneca por inteiro, mas continuava correndo e pensando.
Não muito longe avistava uma pequena ponte na trilha a esquerda de uma encruzilhada e quando ia passar por ela e lavar os pés no alagado de água limpa e transparente que havia sob ela, uma moça me avisava para ter cuidado porque havia um jacaré ali escondido. Eu não tenho medo de jacaré, pensava.
Subia na ponte receosa, e olhava para a face do alagado. De lá de cima, via com muita ternura uma capivara com seu filhote, um jacaré com seu filhote e mais um animal que acho que era um leão com seu filhote, mas não lembro bem. Não devia ser um leão pelo ponto geográfico, mas foi a sensação que tive. Achei-os bonitinhos e fiquei com vontade de pegar a capivara no colo. Carolina, deixe a caça com seus filhotes.
Quando baixava minhas mãos secas de boneca de barro para tocar a água e diluir-me por inteiro, veio aquele clarão. Voltei.
Pelo meu lado direito passava um batalhão de homens montados a cavalo, todos vestidos de branco, com estandartes e grandes chapéus também sempre brancos. Percebia que o som saía deles. Olhava estática aquela passagem, um pouco contrariada, e depois virava e voltava correndo por onde eu tinha vindo, mas desta vez reparava que o chão era escorregadio, de barro liso e vermelho, muito molhado. Eu corria e escorregava naquele chão, descalça. O barro entrava nos vãos dos dedos, nas unhas e nas canelas e secava instantes depois. Logo meus pés estavam mumificados como um boneco de mestre Vitalino. Em segundos eu era uma boneca por inteiro, mas continuava correndo e pensando.
Não muito longe avistava uma pequena ponte na trilha a esquerda de uma encruzilhada e quando ia passar por ela e lavar os pés no alagado de água limpa e transparente que havia sob ela, uma moça me avisava para ter cuidado porque havia um jacaré ali escondido. Eu não tenho medo de jacaré, pensava.
Subia na ponte receosa, e olhava para a face do alagado. De lá de cima, via com muita ternura uma capivara com seu filhote, um jacaré com seu filhote e mais um animal que acho que era um leão com seu filhote, mas não lembro bem. Não devia ser um leão pelo ponto geográfico, mas foi a sensação que tive. Achei-os bonitinhos e fiquei com vontade de pegar a capivara no colo. Carolina, deixe a caça com seus filhotes.
Quando baixava minhas mãos secas de boneca de barro para tocar a água e diluir-me por inteiro, veio aquele clarão. Voltei.
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
Primeiros Delírios
Caro leitor do Tabuleiro de Iaiá,
Após três anos e meio de blog, decidi ousar um novo formato de escrita, para testar-me e variar um pouco, que nunca é demais. Publicarei a partir de hoje uma série que nomeei "Primeiros Delírios", que contará com alguns capítulos, ainda não sei quantos. Pretendo publicar semanalmente um "capítulo" . Abaixo segue a Febre desatadora de todos eles. Tomara que goste.
Um beijo,
Iaiá.
FEBRE
Da definitiva vez que adoeci de amor, tive a sensação de desfalecer, porque foi como se o corpo já não pudesse suportar-se encarnado, tamanho o peso e o cansaço arrastados ao longo das paixões que a vida trouxe volta e meia. Só ficou uma dor. Começava atrás dos pulmões, escorria pro baixo das costas e descia às pernas, imobilizando-me como deve ter imobilizado aquele camarada que eu encontrei outro dia, amputado de um pé: o peso foi demais para poder continuar a caminhada... Impressionou-me tanto.
Adoeci mas foi aos poucos, hoje me recordo durante as febres. No primeiro dia uma euforia, no segundo uma decepção, no terceiro dia tristeza, no quarto dúvida, no quinto solidão, no sexto dia abri os olhos sem poder mover-me. A noite havia trazido sonhos insanos, coloridos e agitados, corpos ao sol, mar revolto, sangue. Muito sangue. Minha cidade natal antes feita de morros e rios, agora me vinha cheia de praias e conchas de outras paragens. Tive a sensação de abrir os olhos, mas esperava estática no leito o grito do relógio para que me despertasse de vez daquele estado catatônico. Não conseguia calcular se era uma quinta ou sexta-feira. Não me levanto cedo às quintas-feiras e se fosse o caso e o relógio não despertasse, talvez permanecesse ali para todo o sempre e daí então seria sim: a morte, o sumir-se-do-mundo, o esquecimento.
Tentava forçar-me a piscar os olhos já abertos, porém imóveis e com a vista embaçada. Que cansaço, meu Deus. O tempo urge e eu tenho que sair para trabalhar. Que cansaço. Lembrava-me da música do Gil para Luzia. “Estou tão cansado, mas disse que ia...” e os olhos abertos alternavam-se entre a secura e a doce miragem da figura do meu amado, do sorriso dele. Estaria ainda ao meu lado? Não sabia quanto tempo tinha passado. Impossível virar-me. Talvez conseguisse chamá-lo. Eterno amor! Venha e me desperte com teu beijo de príncipe moribundo! Esbocei um grunhido, não havia voz. Havia apenas uma força desesperadora de dentro para fora, impedida de passar como uma chicotada de vento quando atinge uma triste janela fechada, como rio vivo e corrente que se estabaca numa impassível barragem de concreto.
Juntei todas estas forças para tentar respirar fundo. Quase não tive sucesso, mas senti mover meu peito levemente para cima, e só então me convenci de que definitivamente não tinha morrido. Assim que o ar que entrou, correu-me uma fisgada do cóccix até a base da cabeça. E veio aquele cheiro de cama, suor e saliva. Veio aquele cheiro azedo que me deu um calor muito forte no coração. Daquele arrepio brotaram lágrimas na nascente dos olhos, e eu como quem se afogava até que no segundo fatal consegue beijar o ar, engasguei, tossi e chorei. As gotas caiam quentes em minha pele gelada de semi-morta. Escorriam pelo canto de minha boca, com o gosto do sal da pele dele e eu bebia daquele veneno, resignada, e chorava como quem perde as pernas, chorava como quem se arrepende tarde, como quem fica, chorava como quem nunca.
Aquele pranto triste e desesperado me acolhia e compadecia, me libertava pra dentro. Carolina, você se revelou. O pranto fez do meu leito o ventre fértil de minha mãe, o colo de minhas avós. E eu me misturei a todas as histórias de amor de minha linhagem ancestral. Doía na carne, era preciso medicar-me. Ou isso, ou começar tudo do começo outra vez: Daquele momento chave em que a desilusão se planta do coração dos amantes para crescer seus ramos daninhos.
Quem saberia dizer? Eu dali apenas tentava retomar os sentidos. Na melhor das hipóteses seria possível apagar esta manhã da inconsciência e recomeçar.
Nos primeiros delírios tudo é possível.
Após três anos e meio de blog, decidi ousar um novo formato de escrita, para testar-me e variar um pouco, que nunca é demais. Publicarei a partir de hoje uma série que nomeei "Primeiros Delírios", que contará com alguns capítulos, ainda não sei quantos. Pretendo publicar semanalmente um "capítulo" . Abaixo segue a Febre desatadora de todos eles. Tomara que goste.
Um beijo,
Iaiá.
FEBRE
Da definitiva vez que adoeci de amor, tive a sensação de desfalecer, porque foi como se o corpo já não pudesse suportar-se encarnado, tamanho o peso e o cansaço arrastados ao longo das paixões que a vida trouxe volta e meia. Só ficou uma dor. Começava atrás dos pulmões, escorria pro baixo das costas e descia às pernas, imobilizando-me como deve ter imobilizado aquele camarada que eu encontrei outro dia, amputado de um pé: o peso foi demais para poder continuar a caminhada... Impressionou-me tanto.
Adoeci mas foi aos poucos, hoje me recordo durante as febres. No primeiro dia uma euforia, no segundo uma decepção, no terceiro dia tristeza, no quarto dúvida, no quinto solidão, no sexto dia abri os olhos sem poder mover-me. A noite havia trazido sonhos insanos, coloridos e agitados, corpos ao sol, mar revolto, sangue. Muito sangue. Minha cidade natal antes feita de morros e rios, agora me vinha cheia de praias e conchas de outras paragens. Tive a sensação de abrir os olhos, mas esperava estática no leito o grito do relógio para que me despertasse de vez daquele estado catatônico. Não conseguia calcular se era uma quinta ou sexta-feira. Não me levanto cedo às quintas-feiras e se fosse o caso e o relógio não despertasse, talvez permanecesse ali para todo o sempre e daí então seria sim: a morte, o sumir-se-do-mundo, o esquecimento.
Tentava forçar-me a piscar os olhos já abertos, porém imóveis e com a vista embaçada. Que cansaço, meu Deus. O tempo urge e eu tenho que sair para trabalhar. Que cansaço. Lembrava-me da música do Gil para Luzia. “Estou tão cansado, mas disse que ia...” e os olhos abertos alternavam-se entre a secura e a doce miragem da figura do meu amado, do sorriso dele. Estaria ainda ao meu lado? Não sabia quanto tempo tinha passado. Impossível virar-me. Talvez conseguisse chamá-lo. Eterno amor! Venha e me desperte com teu beijo de príncipe moribundo! Esbocei um grunhido, não havia voz. Havia apenas uma força desesperadora de dentro para fora, impedida de passar como uma chicotada de vento quando atinge uma triste janela fechada, como rio vivo e corrente que se estabaca numa impassível barragem de concreto.
Juntei todas estas forças para tentar respirar fundo. Quase não tive sucesso, mas senti mover meu peito levemente para cima, e só então me convenci de que definitivamente não tinha morrido. Assim que o ar que entrou, correu-me uma fisgada do cóccix até a base da cabeça. E veio aquele cheiro de cama, suor e saliva. Veio aquele cheiro azedo que me deu um calor muito forte no coração. Daquele arrepio brotaram lágrimas na nascente dos olhos, e eu como quem se afogava até que no segundo fatal consegue beijar o ar, engasguei, tossi e chorei. As gotas caiam quentes em minha pele gelada de semi-morta. Escorriam pelo canto de minha boca, com o gosto do sal da pele dele e eu bebia daquele veneno, resignada, e chorava como quem perde as pernas, chorava como quem se arrepende tarde, como quem fica, chorava como quem nunca.
Aquele pranto triste e desesperado me acolhia e compadecia, me libertava pra dentro. Carolina, você se revelou. O pranto fez do meu leito o ventre fértil de minha mãe, o colo de minhas avós. E eu me misturei a todas as histórias de amor de minha linhagem ancestral. Doía na carne, era preciso medicar-me. Ou isso, ou começar tudo do começo outra vez: Daquele momento chave em que a desilusão se planta do coração dos amantes para crescer seus ramos daninhos.
Quem saberia dizer? Eu dali apenas tentava retomar os sentidos. Na melhor das hipóteses seria possível apagar esta manhã da inconsciência e recomeçar.
Nos primeiros delírios tudo é possível.
domingo, 25 de novembro de 2012
Aparição
Mordeu mais que beijou, com fome e liberdade
Sorriu, espreguiçou e me mostrou que sou covarde
Falou amenidades, sem querer sequer saber
O que seria feito do meu peito ao amanhecer
Estava mais bonito do que era antigamente
E foi me aparecer em hora boa – naturalmente.
A marca que deixou cheirou a amor e saudade
Dos tempos que vivemos de paixão nesta cidade
Chegou e saiu dizendo que quem sabe outra hora
Antes de ir para sempre embora, outra vez me revisse
Deixei-lhe ir sabendo que era a ultima da história
Mas gosto tanto dele que nem assim fiquei triste
Sorriu, espreguiçou e me mostrou que sou covarde
Falou amenidades, sem querer sequer saber
O que seria feito do meu peito ao amanhecer
Estava mais bonito do que era antigamente
E foi me aparecer em hora boa – naturalmente.
A marca que deixou cheirou a amor e saudade
Dos tempos que vivemos de paixão nesta cidade
Chegou e saiu dizendo que quem sabe outra hora
Antes de ir para sempre embora, outra vez me revisse
Deixei-lhe ir sabendo que era a ultima da história
Mas gosto tanto dele que nem assim fiquei triste
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
Que te Deu?
Por que você anda chorando?
Amor, o que foi que te deu?
Confesso, nos últimos anos
Nenhuma notícia mais me entristeceu.
Você sempre teve aquele braço firme
Um novo sorriso pro que a vida traz
E foi esta fé que me deu a guarida
A força precisa para seguir em paz
Há dias eu soube que te encontraram
Tristonho sem ter aparente razão
Será que fugiram de ti os teus sonhos,
Será que te fere uma nova paixão?
Tomara não tenha perdido a esperança
Que desde criança costumava ter
Disseram que o teu lindo olhar anda triste
E que se eu visse ia querer morrer.
Amor, o que foi que te deu?
Confesso, nos últimos anos
Nenhuma notícia mais me entristeceu.
Você sempre teve aquele braço firme
Um novo sorriso pro que a vida traz
E foi esta fé que me deu a guarida
A força precisa para seguir em paz
Há dias eu soube que te encontraram
Tristonho sem ter aparente razão
Será que fugiram de ti os teus sonhos,
Será que te fere uma nova paixão?
Tomara não tenha perdido a esperança
Que desde criança costumava ter
Disseram que o teu lindo olhar anda triste
E que se eu visse ia querer morrer.
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Dia de Sexta-Feira ( Diriam os Cariocas)
Quando é dia de sexta-feira no fim de expediente
Tarde alta, tempo quente, em pleno horário de verão
É tão linda a sensação que retoma toda a gente
Que uma flor de esperança desponta no coração
Na lotação o trocador está disposto e sorridente
O gerente impaciente se esquece da prestação
(Pra segunda manhã-cedo agenda o seu leão de hoje)
E espreguiça desde o almoço até a picada do cartão
Ainda há tempo para quem sabe, visitar o Posto Sete
Bater palmas pro poente rosado no Arpoador
Pelo túnel da Princesa deslizar num patinete
E cruzar com a luz divina do olhar do Redentor
Quando é dia de sexta-feira, a tarde fica contente
Dentro do peito da gente que luta sem rendição
É hora em que a poesia desde segunda latente
Transborda qual fosse leite fervendo num caldeirão!
Tarde alta, tempo quente, em pleno horário de verão
É tão linda a sensação que retoma toda a gente
Que uma flor de esperança desponta no coração
Na lotação o trocador está disposto e sorridente
O gerente impaciente se esquece da prestação
(Pra segunda manhã-cedo agenda o seu leão de hoje)
E espreguiça desde o almoço até a picada do cartão
Ainda há tempo para quem sabe, visitar o Posto Sete
Bater palmas pro poente rosado no Arpoador
Pelo túnel da Princesa deslizar num patinete
E cruzar com a luz divina do olhar do Redentor
Quando é dia de sexta-feira, a tarde fica contente
Dentro do peito da gente que luta sem rendição
É hora em que a poesia desde segunda latente
Transborda qual fosse leite fervendo num caldeirão!
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
Embarcações
Olha só, lá vai um grande amor
Fazendo a curva numa risca escura
Naquela tênue e embaçada linha
Pela beirada, vai o amor pro nunca
Tem um incômodo ao vê-lo indo
E por fazer a curva sem dar seta
Eu quase achei que ia só sorrindo
Dissimulou tão bem a linha reta!
Será que alguém de dentro dele chora
Ou vai o amor abanando o seu lenço
Mas sou só eu lá dentro dele e penso:
Os lenços são bem como as gaivotas
Que dançam livres ao sabor do vento
Embora tanta salmoura por fora
E simbolizam ora o lamento...
Ora a certeza de quem vai embora
Lá foi o amor fazendo a curva escura
Anzol e linha vão barcaça adentro
Quem sabe um vento, outra aventura
Quem sabe a dura proa de meu peito.
Fazendo a curva numa risca escura
Naquela tênue e embaçada linha
Pela beirada, vai o amor pro nunca
Tem um incômodo ao vê-lo indo
E por fazer a curva sem dar seta
Eu quase achei que ia só sorrindo
Dissimulou tão bem a linha reta!
Será que alguém de dentro dele chora
Ou vai o amor abanando o seu lenço
Mas sou só eu lá dentro dele e penso:
Os lenços são bem como as gaivotas
Que dançam livres ao sabor do vento
Embora tanta salmoura por fora
E simbolizam ora o lamento...
Ora a certeza de quem vai embora
Lá foi o amor fazendo a curva escura
Anzol e linha vão barcaça adentro
Quem sabe um vento, outra aventura
Quem sabe a dura proa de meu peito.
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