segunda-feira, 29 de julho de 2013

Alaíde

Observei atenta cada passo, cada gesto da crooner enquanto ela adentrava, delicada, o minúsculo recinto. Buscando apoios para os pés e mãos, concentrada, meio aérea, mas de modo algum alheia aos que lhe aguardavam: alguns bons amigos e um ou outro visitante por si desconhecido,como eu. Observei atenta cada coisa de diva. Os olhos mareados, duas doses de whisky no camarim, vestido preto em veludo, bolero bordado com finas e brilhantes lantejoulas. Delineador, pouco batom e como único adorno uma ônix circular caindo sobre o colo ainda belo e cheio. Não sei se em seu colo carregou criança, se amamentou. A ônix como símbolo dela mesma: sua negritude, sua solidez, seu brilho eterno de pedra preciosa. Seus setenta e oito anos de Brasil.
Minha ansiedade em ouvi-la ali tão de perto desencadeou numa crise asmática e o ar que me faltava veio também dela quando abriu a boca e a plenos pulmões entoou Estrada Branca. O ar veio dela, de seu timbre rouco, porque tudo o que havia em sua voz era generosidade e entrega. Ela abriu a boca e cantou. Cantou sentido, como cantam os pássaros noturnos de saudade da mata, como cantam as crianças suas primeiras cantigas de roda. Ouvi atenta cada acorde da compositora, parceira do inigualável Vinícius de Moraes, um Vinícius tão amigo, assim, Amigo Amado, como tantos outros que se foram no passo do tempo, no andamento das horas da vida que se espalha e desdobra em canção. Da vida e do amor que se revelam em Tom Jobim antes mesmo de nascermos e se findam na voz torta e improvável de Alaíde, felizmente, antes que nós e a nossa coisa mais bonita, morramos.
Foi embriagador como estar hoje de volta a uma onírica década, quando havia charme, elegância e sinceridade na voz dos artistas. Quando lhes confiávamos nossa história de amor mais secreta, ainda que escancarada no palco. Quando havia verdade e generosidade. Tudo aquilo que se gerou e fez marear os olhos e o coração do compositor – haverá ainda? Mesmo que a duras penas, numa casa pequena, para um grupo de conhecidos que apenas sonham juntos, haverá ainda? Se meu coração inundou-se de amor e estou viva?
A canção responde sim. Alaíde responde, sim!
Resta a nós envelhecermos aos poucos, suficientemente devagar para podermos degustar a textura de nosso tempo, o doce e o amargo do que houver. E assim como a grande Alaíde Costa, estarmos aí pro que der e vier, porque a arte é isso mesmo, camaradinhas. Um baú misterioso de alegrias e tristezas, de descontinuidades feitas de apenas uma coisa chamada gente, nem boa nem má.
Gente que se doa e vira beleza.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Enxerimento

Você saiu há meia hora
Mas teu perfume não vai embora
Que mania mais enxerida

(esta que você tem)

De perfumar a minha vida!

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Terceira Lua

Para Anna e Anita, com carinho e gratidão.

Já vejo a terceira Lua
Crescer do sopé da porta
Tem três meses meu benzinho
Que cheguei nesta paragem

Nem bem eu pousei na rua
Qual fosse uma folha morta
Tu me deste teu carinho
E a prova de amizade

Nesta casa eu renasci
Encontrei o solo fértil
E do adubo floresci
Um oásis do deserto

Já é hora, a marcha canta
E eu devo ir-me embora
Agradeço, ó minha santa
Cada qual bendita hora

Já vejo a terceira Lua
Minguar cá nesta paragem
Tem três meses meu benzinho,
Que eu cheguei só de passagem.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Redondezas

Tenho usado caminhar à toa
Sem rumo certo, errante apenas
Em horas tão cedo que ninguém se move
Ou quando melindram as tardes amenas

Vou pisando as calçadas de pés doloridos
Tornozelos cansados, pesadas chinelas
E sorrio pros bichos nos cantos famintos,
São bem como as deles as minhas mazelas

As ruas me levam em sua correnteza
Mas eu não sou pau! Mas eu não sou folha!
Não há fio de ferro que me corte o sonho
Não há pé de vento que o afinco me tolha

Se vou escorrendo, boiando nas ruas
Pisando as calçadas com patas dormentes
É que desde o dia em que vi os teus olhos
Meu corpo padece de algum mal latente:

Eu vou caminhando e pressinto holofotes
A brisa se move e carrega os cabelos
Me sinto mais bela, mais viva e mais forte
A Deus e à Sorte confio segredos

Tenho usado (sempre) caminhar à toa
Mas desde que eu soube que tu vives perto,
Esquinas do meu coração têm mais graça
E nem me recordo viver num deserto.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Enquanto não Estiar

A cidade amanheceu branca. O vendaval da noite anterior somou-se ao calor abafado que mais pesava e apressava o final da semana. "Chega logo, sexta-feira". Na madrugada uivos de agonia chamaram raios e trovões. Esses lobos domésticos, pobrezinhos, sem nem sequer um campo para enlouquecerem-se em matilha. Como fizeram-se sonoros em seu desespero! Demorei muito a pegar no sono, preocupada com o sono que sentiria de manhã se não dormisse logo. E assim foi,evidentemente. Na manhãzinha meus olhos grudados acordaram sem coragem para uma cidade viscosa como a pele e o sangue dos paraibanos, cerenses,paulistas, gaúchos, mineiros - todos cariocas.
A cidade tão populosa tinha as calçadas vazias. Muitas foram as crises de enxaqueca, dor de barriga, febre alta, suspeita de dengue. Muitas, que coincidência. Que dor mais insuportável a de ter que ir trabalhar num dia destes.Impossível povoar as ruas cheias de corredeiras ferozes e vivas, que com intenção de vingança enchiam as calçadas do lixo podre resultante da vida humana na cidade. Praças, bancos, estabelecimentos vazios, a não ser por um ou outro retardatário da noite anterior, que sem perceber que o sol hoje não viera, acreditou que a madrugada simplesmente tinha esquecido de acabar, e ainda era tempo para outra dose. "Esfriou, me traga um conhaque".
As ruas assim, no abandono de um dia de chuva são demasiadamente melancólicas. Engoli o choro com um pensamento absurdo de que todos haviam sumido e só restava eu sob a água celestial dos tempos. Não acreditei no pensamento de fato, mas tive medo da força que teve. Que triste foi o meu lamento - "Eu gosto tanto de gente, cadê a população?" .
Mas uns olhares atrás de cortinas logo me fizeram recobrar a consciência. Estavam apenas todos em suas casas. Havia pessoas, elas só não rodavam por aí. No aconchego de seus lares quentes, com seus filhos e cafés quentes, chocavam o amor que iria às ruas em hora mais propícia, quando a própria Natureza não os contrariasse, quando o céu não desabasse assim tão raivoso. O céu das emoções de Deus. Permitindo-me ainda guardar o resto de sonho que havia nos olhos, transfigurei-me neste momento em rua, alameda, poste, jardim, poça imunda. Tornei-me eu mesma o corpo da cidade. E deparei-me no Largo do Machado com meu coração quietinho, fonte verde, musgulenta e inérte apesar da vida que abriga, apesar de imponente construção: Um coração cheio de amor por dentro, mas em cujas artérias não passeia nem sequer um glóbulo vermelho enquanto não estiar.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Luas como Esta

A minha alma tem cor cigana,
O meu telhado é feito de estrelas
Dos meus cabelos teço minha cama
De minhas pernas descem corredeiras

A minha alma tem fogueira acesa
E um violão que toca no sereno
Tem o ruído assustador da mata
E o olhar do moço mais moreno

A minha alma, esta aonde habito
Eu não limito, pois não tem tamanho
Quão mais eu penso que ela cala o grito
Tão mais me soa o grito a mim estranho!

E em luas cheias, luas como esta
A minha alma é festa, é força insana
A poesia: tudo o que me resta
É um antídoto ao coração em chama.

(Ou quem sabe a poesia a alma alisa, o peito inflama e pela lua, feito bicho clama?)



terça-feira, 9 de abril de 2013

Brindei Comigo

Brindei comigo um brinde antigo
Andava mesmo com saudade de mim!
De ter a sós com meu umbigo
Um bate-papo de botequim
E disse eu mesma: Como vamos?
E respondi, nem bem nem mal;
Pois já que agora aqui estamos

- E já que o papo é pessoal-

Deixa para lá os desenganos
Que eu nunca fui de baixo astral.

Que coisa boa ter comigo
Um lero-lero de botequim
Que começou com poesia
E terminou também assim

O céu estava uma beleza
E a minha mesa era só eu
Agradecendo a Natureza
Por todo bem que já me deu

Brindei comigo um brinde antigo:
Maior é Deus, eu sou pequena!
Estava mesmo com (uma baita) saudade
Na minha idade, que felicidade.