quarta-feira, 13 de junho de 2012

Anuário do Primeiro Beijo

Para o meu Caboclo Poeta-Citador

Em Junho, nos conhecemos
Em Julho nos beijamos
Agosto, já tínhamos planos
De viver esta linda amizade
Setembro - primavera do tempo
Conhecemos a felicidade!
De Outubro ao mês de Novembro
Fomos desejo, ciúme e paixão
Dezembro trouxe uma encruzilhada
(Erramos o lado da estrada)
Em Janeiro: solidão.
Fevereiro, quase esquecemos
Ao Carnaval nos entregamos
Mas em Março desesperamos:
Saudade Abril seus cortejos
Em Maio, não desgrudamos
E continuamos, e continuamos...

Já volta o mês do Inverno
Te Junho que hoje na sacada
Como quem não quer mais nada
Veio Bilac cantando:

"Quando passo um dia inteiro,
Sem ver meu amorzinho
Cobre-me um frio de Janeiro
No Junho de meu carinho..."

E eu te fiz este anuário
Pensando em nosso grande amor
Que seja sempre, por favor
Dos meus versos o relicário
Da inspiração o cenário
Da alegria o propulsor...
O alimento da coragem
A vantagem de saber
Meu amor, que grande sorte
Em qualquer data do ano
Eu ter esbarrado em você.






segunda-feira, 28 de maio de 2012

Feituras do Amor

O amor me fez gracejo
Disse ela com um beijo
O amor é um privilégio
Quando tédio sem amar!

O amor me fez pirraça
Disse alguém cruzando a praça
O amor é uma desgraça
Que não quero mais provar!

O amor me fez chamego
Disse a outra pro seu nêgo
O amor é um sossego
Que me bate após gozar.

O amor fez arapuca
Disse aquela já maluca
O amor é uma sinuca
Ou um jogo de bilhar?

O amor não me aparece!
Disse um pobre a Deus em prece
O amor só agradece
Quem tem chance de provar...

O amor mesmo precoce
Me deu voz e bico doce
O amor, se amor não fosse
Era fácil de inventar

O amor não me fez nada
A não ser pintar a estrada
E ensinar a tabuada
De como se faz para amar

domingo, 13 de maio de 2012

Poema Sem Forma

Para os Kantovitz Sanglade

Pela terceira vez na semana, sonhei contigo
O que me causou grande espanto – Há trinta anos não te vejo.
Desta vez continuava manso
Objeto de meu carinho, sorridente
Mas perdera dois dentes do fundo e tinha dois dentes verdes da frente, verdes de tanto fumar cannabis.
Te vi cruzar a rua e pulei em teu colo segura: antigo amor, tua saudade cansa como a de um irmão!
Neste instante cruzamos um campo azulado
Havia araucárias e montes escuros
Eu ia montada numa onça pintada e você a cavalo, corria com os cachorros.
Ganhei a corrida e cravei as unhas na onça.
A onça era mansa
A saudade é que não correu. Ficou. Cresceu.
Ferozmente.

domingo, 29 de abril de 2012

Nada se Mova no Domingo

Domingo. Já passa das quatro da tarde e ainda não falei com ninguém nem vi qualquer pessoa. Estou sozinha, e estes raros momentos de independência absoluta me garantem um estranho domínio sobre o tempo. Já são mais de quatro da tarde, uns cantos de passarinhos se confundem com rugidos de aviões que cortam vez em quando o ar parado de domingo. Nada demais acontece, nem tem porquê. Debato-me apenas, calada nesta sala com questões tão imensas das quais não posso dar conta: o amor, a música, o corpo, o dinheiro, a saudade, a morte. Debato-me com o barulho que fazem em mim, ouço meus pulmões que assoviam asmáticos, fumo mais um cigarro. A morte, a música, a saudade. Nada se move no céu parado de domingo.
Dois gritos roubam-me a concentração em meus devaneios. Um veio do lado esquerdo do prédio, me fazendo abrir os olhos num sobressalto - tragédia? Segundos depois, outro grito do vão direito. Tragédia nada, gol do Botafogo. Rio de mim mesma. Estou tão absorta em tentar achar soluções para a existência humana que me esqueço do que há de mais humano. Esqueço da gente.
Descobri há pouco um novo escritor que me tirou o sossego. Embora goste tanto, não consigo progredir há cerca de um ano em meus estudos literários por não poder mais contar com meus olhos. Ou andam longe, ou não funcionam. Tenho muito medo e choro, não quero perder meus olhos. Preciso saber da literatura. O homem que eu amo lê para mim quando me falta a visão. Nunca vi gesto mais bonito na vida. Lembro-me que foi num dia destes que pela primeira vez tive vontade de dizer o quanto o amava, mas não disse. Mesmo quando tenho os olhos, quando meus olhos estão saudáveis ainda e não me abandonam astigmata, ainda assim prefiro quando ele lê para mim. Porque gosto de sua maneira de me dizer as palavras e do modo como, poupando-me o uso dos olhos, me fornece um horizonte de imagens.
Preocupo-me demais ultimamente. Angustia-me não saber se haverá solução e por isso quando bebo, choro. Ou se não choro, visto minha casca de amargura e desprezo por tudo. Desprezo não, desprezo não é a palavra. A palavra é resignação. Que prevê a consciência, a frustração e os olhos baixos de dor na hora da aceitação. Será que foi assim que meus olhos me abandonaram? "Insuficiência de convergência dos músculos oculares" - disse-me o oftalmologista especialista em desenvesgar pessoas como eu. Incapacidade em focar ao mesmo tempo os dois olhos na mesma coisa ou palavra, visualizando-as deste modo embaçadas. Uma doença crônica desenvolvida a partir do astigmatismo. Falta de foco prolongada. Falta de coragem expandida. Temo. Quando decido pelo foco faltam-me os olhos e os músculos. Uma batalha de fracos, luta inglória? Temo. Ultimamente apenas preocupo-me com o que vai ser feito da música brasileira. Desespero-me em pensar, onde foi que ficamos tão burros? Choro compulsivamente quando bebo. Ouço as histórias do poeta e dou-lhe fortes abraços de despedida (ele não imagina o quanto é próximo de mim nem nunca saberá o quanto rezei ontem por seu aniversário). Eu tenho tanta fome de aprender. Dê-me olhos para enxergar e alimento para a poesia, dê-me algo de bom para comer.
É domingo, mas terça-feira é feriado. Nada deve ocorrer nestes dias, porém hoje um novo autor me emocionou. Quase que tive a esperança e o ímpeto de sair de casa para comprar um livro, mas desistí. Não tenho olhos. Gol contra o Botafogo, o silêncio é de resignação. Feriado prolongado, terça-feira é Dia do Trabalhador e ninguém deve fazer o ar de mormaço se mover até então, com excessão dos pássaros e aviões.
Eu quero trabalhar. Todo mundo deve ter este direito. Eu quero meus olhos de volta. Alguém me agende uma devolução para a quarta-feira.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Em boca fechada...

... Não entra mosquito.
Está muito bem dito o jargão popular.
Quem fala o que quer leva ao pé d`ouvido
O bem merecido e pode não gostar

Eu tenho pra mim - pois tenho vivido,
Que só é querido quem sabe chegar:
Se mete o bedelho onde não é bem-vindo,
Riscou labareda e vai se queimar

Eu uso a caneta no melhor sentido
Falando de amor, de saudade e canções
Mas ela também tem seu lado maldito
Arma de veludo para os fanfarrões

Mais disso eu não digo, ou comento fato
Leve os seus farrapos pra outro lavar
Em boca fechada, nào entra mosquito
Já está mais que bem dito o jargão popular.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Lua na Atlântica

Como pode, madre Lua
No turquesa em que flutua
Me deixar em plena Atlântica
Deste modo, seminua?

Falha tua, madre santa
Me botar em disparate
Tudo arde enquanto canta
Tua luz branda na tarde

Me acabe, despudorada
Sem teu manto de candura
Mas ainda baluarte
Dos poetas sem censura

Pobre eu, desavisada
Caminhando sem porque
Entre os homens da calçada
Hipnotizada por você

Nem reparo, que sou eu
Aqui despida nas ruas
Tua imagem a fazer
Fervilhar as carnes cruas!

quarta-feira, 21 de março de 2012

Sem Palavras

O dia cedo, a folha em branco. Nas manhãs todos os sentimentos ainda frescos, com resto de sonhos, com resto do que a noite anterior deixou de amargo na boca. Nas manhãs, quanta vontade. Os planos do dia, o café preto, o cigarro - e nele mais um dia sem cumprir palavra. Então o branco da folha, o vazio da folha. Escrever apenas porque é necessário, mesmo sem inspiração ou tema, ainda que sejam rasas as palavras para nomear tanto vazio. Ainda que morto não ressone e não escrever seja uma espécie de morte temporária, um oco na alma. Gastei as palavras, desbotei-as buscando inutilmente explicar tantos sentimentos incompreensíveis e agora me vejo largada num catre humilde, resto humano. A língua portuguesa que tanto amo me abandona neste momento, entre farelos de linguagem. Eu apenas sussurro e balbucio onomatopéica, interjeitora. Ah! Dói perder-se da língua mãe! Volto ao Nheengatu sem glória, volto como um pombo que adentra o ninho do mavioso Uirapuru na mais cantante matina.
Alguém me forneça por piedade uma palavra! Uma palavra bonita, de forma perfeita, melódica. Me emprestem uma palavra para que dela eu faça a vida, invente uma sentença ou uma reclamação. Me dêem uma palavra brasileira que por sí só defina mil outras, que se encadeie em argolas, faça correntes de pensamento. Crie uma nova epistême! Quebre todos os muros e paradigmas da nova ciência, da sempre nova ciência.Uma palavra de comando, de revolução. Uma palavra de ordem! Com efeito, que arrepie, aperte nossos corações e passos. Que carregue as multidões!
Mas que por favor, não me fale ao peito de amor. Se eu falar mais uma vez de amor não sei o que será deste resto de gente que aqui pousa no catre. Tem piedade de mim, língua-mãe, vê o quanto já estão encharcadas de graxa as minhas penas, o óleo pesado que as fez maciços blocos. Já não tenho flutuabilidade, tampouco. Volta língua-mãe, e eu prometo te louvar com novos temas, ousar tempos verbais, errar menos. Volta e eu serei sempre súdita de tua beleza coesa. Volta e me ensina, me encaminha. Que eu não fale mais de amor. Que eu abrace todos os outros temas em detrimento deste. Ou que reste meu corpo silente no catre, inútil e murmurante, cansado e desbotado, a pele sumindo, a cor faltando, até que desvaneça como hoje você se foi de mim e eu fiquei vazia.
Mas volta, língua-mãe. Para que eu não seja mais tão rasa ao ponto de só falar do amor. Volta, por piedade. Eu te amo.