terça-feira, 22 de março de 2011

Retrato na Parede.

Na primeira vez em que pousei meus olhos sobre aquele retrato, nada me causou. Era ainda curiosa, pisava em ovos, achava até graça. Ainda não havia amor ou sombra de ciúme. Mas com o tempo, a cada vez seguida em que lá estive, a cada encontro com os olhos estranhos da mulher de outrora este sentimento se transformava.
Nem dor nem desespero. Comecei a sentir-me quase íntima daquele retrato. Nele, ela envolvida pelos braços em que agora eu me envolvia na cama revirada, sorria.
Então de vez em vez passei de ignorá-lo a percebê-lo, às vezes esquecê-lo - o retrato - às vezes fingir que não o via, outras fingir que ele não havia na parede imóvel, estático, lembrança feliz de um tempo atrás, mas não muito atrás. Ela, pássaro belo às vezes de cabelo solto, às vezes coberta em tinta, me sorria enquanto ele me amava. E de vez em vez do retrato me dizia que também sentia ciúme, outras gostava, e algumas vezes me mandava embora e dizia que ali quem imperava ainda era apenas si mesma. Era dona daquilo tudo que eu cobiçava por amor e me negava os olhos dele, o sorriso mais aberto ao lado seu. O retrato era a prova.
Certas noites eu me emudecia perante o barulho daquela imagem. Tremulava: roupa estendida no varal ao vento, corda de bandolim soando. Em outras, fazia do sussurro ao ouvido um grito, para que, quem sabe ela de lá escutasse: veja só, você é um retrato na parede, coisa do passado. Eu estou aqui.(Quem sabe era para que eu mesma escutasse e me convencece de que a realidade era mais do que um retrato na parede).
De manhã então passei a dar-lhe bom dia todos os dias. Em dias de calmaria da alma, por respeito às vezes também pedia licença para adentrar o quarto e tomar-lhe o que era seu em foto. Já me tornara tão próxima dela que a via em sonho, a imaginava andando pela casa seminua e me resignei após tanta insistência a dividi-lo com ela na fotografia.
Em nosso trato silencioso, ficou assim. Seria meu nas horas em que estivesse presente e dela nas horas anteriores ao retrato e para sempre lá congeladas no tempo. Era eternamente seu assim, e meu enquanto durasse este novo amor, na efemeridade tão óbvia do cotidiano.
Até que fossemos irmãs e, sendo feitas de fogo e tom, nos tornássemos tão próximas que congelada no futuro, também eu me tornasse um feliz retrato na parede.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Poema para um novo amigo.

Ando tão emocionada
Com esta coisa de amizade
Que hoje me convenço
De conhecer a tal felicidade
Ter a palavra, os olhos, o abraço, o aperto de mão
Sem duvida fazem bem
E muito bem! Ao coração
No sorriso de um novo amigo
Que a gente percebe de primeira
Mora o sentido da vida
É a alegria verdadeira
Na Terra, temos breve passagem
E o que será melhor então
Do que levar conosco a bagagem
De quem só abriu o coração?
Eu por mim ando emocionada
E peço a Deus perdão
Pelas minhas vaciladas
(Os erros de qualquer cristão!)
Mas que me dê Senhor, nesta jornada
Além de saúde e pão
Sambas para levar nas madrugadas,
E muitos amigos para levar no coração!

Falando ao Coração

Coração vadio, por que choras?
Não foi você quem me disse para me soltar, para enganar o amor, para brincar de vento pela cidade antiga, desacreditar de apegos? Então por que penas agora, coração, pela mazela de um porto seguro, pelo acalanto doce de carinhos? Não era tua canção um maxixe dolente?

Coração mesquinho, por que clamas?
Não era melhor solidão, liberdade das ruas, comigo-ninguém-pode, boca de carmim, dia não e dia sim, aventuras secretas, poesia farta, não te dou meu coração por nada neste mundo, meu eu mais vagabundo e insano, neste ano? Não era tua canção um samba-de-breque malandro?

Coração insano, por que mudas?
De verso para prosa com tal facilidade, agoras queres intimidade, aconchego, comidinhas, se você ficar longe o que será de mim, teu cheiro me embriaga e não o de mais ninguém, será que me acha bonita, usarei o vestido que mais gostas. Pensei que não era a tua canção uma valsa de amor!

Coração bicho-do-mato, por que erras?
Não sabes o que queres e na penumbra me deixas, zombas de meu peito caipira, me escangalhas, desdenha, brinca em mim saltitante, assim como a lua enchendo e maltratando a beira dos rios, descabendo do corpo, enlouquecendo a tôa, fazendo drama e alarde, ainda que tarde, já é muito tarde para mudar de idéia. E agora, coração, que me resta? Não era tua canção uma simples seresta?

Por nada haver além, só resta o agora! Mudas de seresta, confessa teu erro na valsa, clamas pelo malandro e segura o tempo neste maxixe dolente! Que és capaz de tudo comigo, coração. Porque em mim em tudo mandas. E porque sei que a mim não mentes.

Ibejis

Conta a história dos Ibejis que estes nascem irmãos gêmeos, e dividem ao longo da vida uma mesma alma.

Quando eu sinto você sente, e antes mesmo que você diga eu já pensei naquilo, ou tive a mesma idéia. Porque sem que combinemos, nos vestimos com a mesma cor, pois foi daquela cor que acordou nossa alma partilhada.
E se meu coração sofre, sofre também o seu que bate atrasado e apertado mesmo sem saber a razão e se pergunta: o que está acontecendo comigo? Então busca em mim consolo, e assim fico eu também mais feliz na tua presença, que mesmo quando em silêncio, diz tudo aquilo o que eu precisava ouvir.
As brincadeiras que só nós entendemos, muitos até invejam. E ao verem nossa amizade pensam: o que há com estas duas, será que são loucas, estão de firula ou de fita? E deixamos risonhas os outros pensarem o que bem entenderem porque mesmo que explicássemos, jamais seriam capazes de entender.
Por partilharmos da mesma alma, acho que nascemos com o corpo tão diferente. E foi para que nós mesmas não nos confundíssemos. Mas ainda assim, às vezes me olho no espelho e vejo você, porque também mora em meus trejeitos, na cor de minha pele que contrasta com a sua pele.
Quando eu nasci de mãe e pai no interior, você já tinha nascido de mãe e pai em outro canto distante do país, numa capital cheia de coisas e que bonito, depois de mulheres feitas, nos percebermos Ibejis no primeiro olhar. Você chegou em minha vida já me dando a mão e assim nos reconhecemos irmãs nesta vida novamente. (acho que quando isso aconteceu nossa alma ficou feliz e ganhou força).
Rezo a Deus todos os dias que te conserve assim, perto de mim por muito tempo e que mesmo em ocasião de não nos vermos por muitos e muitos anos, possamos saber da vida uma da outra e possamos também estar perto pela alma e pelo coração. Porque são minhas suas penas e suas pernas, são minhas também suas alegrias e alergias, são meus também seus olhos e seus amores, mesmo aqueles mais vadios, mesmo aqueles que eu te aviso, não vão durar, ou aqueles que quando aconteceram, nós duas nos olhamos e pensamos: aí tem.
Pelas barras que seguramos juntas e as que ainda havemos de segurar. Por você não gostar de quem me maltrata, e ai de quem mexer contigo, pois há de se ver comigo. Pelas nossas músicas preferidas, por aquele meu vestido que fica mais bonito em você, pelo seu jeito de arrumar meu cabelo e me ensinar a limpar as coisas. Pelas viagens que faremos, pelos filhos que teremos um dia e que serão criados como primos, pela grana que um dia te emprestei e esqueci de cobrar, e pelas vezes em que você mesmo não bebendo, me pagou uma cerveja no botequim para que eu ficasse mais calma. Por me dar sempre força e acreditar em mim. Obrigada, minha amada.

Para as minhas Ibejis, Rachel Dantas e Silvinha Dufrayer, com todo o meu amor.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Conto de Natal

Nasceu e cresceu ali, e ali aprendeu a amar o rock`n`roll. Aos dezessete já era muito mal visto, por fazer parte da restrita legião de malucos, drogados, artistas e prostitutas da pequena cidade. Pelas infindáveis vezes em que tomou porres e passou mal, ficou conhecido como Vumito, o Edson. Daí Vu, Vumitão, tudo que era superlativo era com ele mesmo, e aos vinte e tantos foi grande sucesso de violão em punho cantando Guns, Led, Dylan, entre outros clássicos no Bangalô Bar, também conhecido como "curva de rio" na boca pequena : "onde tudo o que é tranqueira para", o conhecido pelos frequentadores como único reduto dos poucos artistas e porra-loucas da cidade.

(Bangalô, que saudade de jogar uma sinuca doida às quatro da matina...)

Fiquei sabendo do acidente do Vumito lá mesmo, no Bangalô. Capotou o carro na estrada, doidão, ninguém sabia se ia vingar. Daí história a beça, de que estava acompanhado de duas rameiras, que tinha um quilo de pó na caçamba, que tinha dormido ao volante, pouco importa. O foda era pensar na noite dos malucos da cidade pequena e já tão carente de música sem a arte apaixonada do Vumitão.
Um ano depois, estava sentada no balcão do Banga quando recebi do garçon uma dose de wisky, que alguém tinha me mandado. Eu com quinze anos era mesmo da pesada. Aceitei, e quando olhei para trás afim de ver quem havia me enviado o cortejo, vi uma cena estranha lá na àrea. Um deficiente físico, em cadeira de rodas, adentrando no recinto. Olhei uma segunda vez, assim que a galera saiu do entorno do cara, e qual não foi minha surpresa ao ver que era ele, o Vumito, de violão em punho como sempre, cabelo comprido e bota coturno, camiseta preta dos Stones. Foi levado até o palco, e deu seu show, como se nada tivesse acontecido, ou o abalado. O bar quase foi abaixo de emoção.
Isso foi por volta do ano 2000 se bem me lembro, quase onze anos já foram levados pela poeira do tempo, e eu nunca mais soube desta figura.
Ontem contudo, me surpreendi ao chegar em um boteco na mesma cidade,do outro lado da rua do extinto Bangalô Bar, com as mesmas pessoas que encontro todos os finais de ano invariavelmente, e ver o cara, the rock legend, o Vumitão tocando aqueles bons e velhos rock`n`rolls. Porém, o Bangalô já não havia mais, nem os antigos porras-loucas, nem sinuca, nem Jack Daniel`s, e eu quase chorei quando ele tocou "Sweet Child o`Mine" e ninguém soltou um "yeah, rock!!", como antigamente, nos tempos àureos... só eu, e ele soube o por quê.

(Uma vez, antes do acidente, ele me deu o microfone para cantar e saiu fora bem nesta música, se mandou na doideira, e eu segurei a onda da galera mandando ver na Janis)

Mandou no fim da noite umas dez saideiras, como bom artista que não estaria mais feliz em outro lugar do que ali. Ali ele existia, ali podia ser quem era, e assim persistia, fazendo sua arte para deficientes artísticos, quase como uma caridade, um verdadeiro Papai-Noel ou um Jesus com semblante e tudo, na cabeleira loira caída aos ombros, que sabendo da falta de arte daquela gente os presenteava sem nada pedir em troca, os brindava com sorrisos sem dente, com o velho violão apoiado no colo, e aquelas melodias tortas e lindas, aquela dádiva em pessoa.
Quando fui embora, me despedindo com um aceno de cabeça, ainda estava lá, mandando "Wish you were here" de saideira, emocionado, arrastando no andamento e caprichando nos agudos.
Neste ano, seja a canção de Vumito, sua persistência, seu exemplo de amor à arte, sua garra e especialmente sua habilidade de tocar o foda-se para quem não sabe do que ele esta falando, meu hino natalino.
Rock it, man.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Primeiro Amor

Minha irmã, vem cá, tenho um segredo e é só pra você que conto pois é minha irmã mais velha e eu nunca contei isso a ninguém.
Desde que você chegou eu queria te dizer algo, mas aos doze anos como é difícil falar de amor. Aos doze anos a gente sente amor por bicho, por mãe, por amiga e por irmã (por irmã sim, muito amor, ainda mais irmã mais velha que vive longe e quando volta vem cheia de histórias novas, vem aqui pro interior toda diferente e às vezes é só pelo cheiro de cigarro que te reconheço). Mas amor por um menino, irmã eu acho que estou gostando de um menino, e eu não sei bem o que isso quer dizer.
Ele é um ano mais velho, estuda na mesma escola que eu e eu sei que ele nem desconfia que eu goste dele, quer dizer, eu nem sei mesmo se eu gosto dele, e é isso que eu preciso que você me explique, irmã. Depois que entrei de férias e não o vi mais, achei que eu estava enganada e que não tinha nada a ver achar que gostava dele. Não fiquei pensando nele nem nada, apesar de eu achar que ele é o menino mais bonito que eu já conheci. Mas daí um dia eu estava com a mamãe no mercado, (a mamãe não pode saber, hein, promete que não conta). Eu estava com a mamãe no mercado e eu vi ele passando com a mãe dele. Mana, meu coração deu um pulo, não sei o que senti, mas fiquei toda mole e tremi, você acredita que eu tremi? Quase que a mamãe percebeu, não sei o que me deu irmã, mas eu acho que isso é gostar, assim que nem você gosta quando tem um namorado.
O pior é que não sei o que fazer, porque agora estou de férias e se eu tiver que esperar até o começo do ano para ver ele de novo acho que sou capaz de ter um piripaque. Ele tem um jeitinho todo loiro, sabe, de olho azul que mais parece um destes artistas que você conhece lá no Rio de Janeiro, e eu fico pensando a noite e fecho os olhos e vem logo ele na minha cabeça, conversando com os amigos na hora do recreio.
Irmã, me ajuda. Será que eu estou apaixonada?



Minha flor pequena, que eu embalei de colo
Que amo mais que tudo, meu céu
Já deixastes há tempo as fraldas, teu corpinho já toma formas
E sempre que chego de longe,
(Tentando disfarçar o cheio do cigarro para que não repares)
Me espanta o quanto estás alta e bela,
E me alegra ver o quanto conservas desde meu colo a meiguice.
Hoje vens a mim como quem espera um conselho, e eu
Tua irmã maior,
Me pasmo perante a clareza de teus sentimentos,
Perante tua simplicidade em descrevê-los,
Vens me dizer que tens um amor de menina-moça!
Logo eu, que ainda me vejo tão infantil no amor
Que apesar de colecionar histórias, no amor me sinto inda menina,
Tão aprendiz!
Agora queres um conselho de tua irmã maior, e o que ela tem a te dizer?
Acho sim, que estás apaixonada
Acho que sabes que eu também estou
Mas no mais, sobre o tema...
Só sei que mais tenho eu a aprender contigo.

Pois no dia em que você surgiu no mundo, fez a palavra amor ter sentido.

Agora partes para uma primeira jornada, onde ainda há de viver de tudo... vais chorar e sofrer um pouco, parte da vida e parte do amor, mas vais ter tantas alegrias quantas nem podes imaginar! E saibas sempre que eu estarei aqui, longe ou perto, estarei aqui. Para te dar colo e para também receber do teu colo, onde hoje também já caibo, meus Deus, como você cresceu.

Aonde é que eu estava quando você cresceu?

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Reflexiva

... E sobre meus medos,
Quando escrever eu tento,
Não sei se deles me livro,
Ou se em livro os invento...