(Para deixar um)
Rastro de sorriso no canto da Lua
Um tímido encontro no meio da sua
Janela antiga de tramela branca
Sono de camisola manchado de rua
Então madrugada, estaria nua?
No dia seguinte me veio de calça
Foi meio sem graça, simples criatura
Entornamos nem duas, devido à desgraça
De cair no meio do teu uma traça
E o copo todinho regar uma arruda.
No abraço de ida, beijo derradeiro
Nem choro nem dor, ou flor de desespero
O cheiro que a pele come e se habitua
Só deixa bagaço,
Cioso cansaço de Lua e de rua.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
sábado, 14 de agosto de 2010
Ventania
No perfeito cenário de meia-noite, passada numa sexta-feira 13 de agosto.
Toda Santa Teresa viu. Toda a Coroa, Falet,também o Morro dos Prazeres. Todo mundo viu, e ai de quem estava na rua, ai deste, como viu...
Primeiro um ar quente inundou os largos, cheios de pessoas com suas cervejinhas, celebrando aquele dia quente de sol, de céu azul, dia perfeito de sol se pôr vermelho atrás do morro visto do terraço, de lua crescente que veio sorrindo. E foi aí, depois da lua sorrir que um estranho ar quente de mofo e cinza,um incômodo ar quente de pó veio. Seguiram-no fracos pingos de chuva, que em vão tentaram dizer a que vinham, pingaram em aviso: aí vem coisa, ou de tempestade ou de vento, de vingança ou de varrida, de limpeza geral, de levantar defunto.
Eu comigo inundada também de mormaço, de mofo e cinza, de escuro. De poeira: Haja poeira para tanta estrada esburacada neste mundo velho sem porteira.
No breu ouve-se um grito aos quatro cantos, um grito de guerra. Mas ouve-se com a nuca, com o frio na espinha, ouve-se de arrepio, de coisa estranha. As folhas se agitam nas àrvores magrelas da janela, um redemoinho se forma num canto de paralelepípedo, e por entre os vagões do bonde: Menino, isso deve ser coisa de Pererê, só pode. É Saci arretado isso, na minha terra cansei de ver.
Mas o grito ainda arrepia a nuca. É de Saci, pode até ser. Mas quem manda neste vento é Oyá Iansã, é a guerreira quem se manifesta. E quando ela se zanga, painho, sai de baixo. Sai da frente que vem vendaval.
Num rebuliço, as ruas começam a perder fregueses corridos nos carros, bondes e táxis. Olha que aí vem coisa. Um bêbado acostumado com desgraça gargalha descendo a ladeira: eu vou voar! Eu vou voar!
Em mim o vento causa medo e excitação. Um certo tipo de respeito assustado, e de deleite ao mesmo tempo. Vento no cabelo, vento no suor, vento na janela, sempre amei vento. Porque tenho para mim que o vento, quando é destes de levantar tudo, de sacudir, leva e traz consigo coisas do espírito da gente. Traz até mesmo a loucura, traz a mudaça. Os ventos da mudança, mais uma vez recorrem em minha história.
Pelo vitral da porta antiga de madeira, observo a voar uma caixa d'àgua, pedaços de madeira, lixo, e muitas folhas secas. Elas voam e vêm até meu quarto, entram, tomam espaço, se pousam no chão. Ouço um estrondo de uma porta que se arrebenta com a força da assoprada. Nada se pode fazer contra a vontade de Oyá, a força dos ventos da mudança, a força dos ventos da luta, da guerra. Às vezes também o vento é de Xangô, segundo me disse um camarada uma vez no quintal de casa, não sei.
Quinze minutos depois, o vento cessa de sopetão.
Na rua, só o lixo, a poeira, tocos de madeira, objetos perdidos, alguns sobreviventes do ocorrido a sair dos esconderijos e a voltar a caminhar nas ruas bagunçadas, remexidas, reviradas.
No chão de meu quarto, folhas secas, lágrimas passadas, poeira dos tempos, saudades de quem já partiu, poemas, partituras, uma fita vermelha de cetim.
Mais uma vez, os ventos da mudança varrem de mim e das ruas, da nossa minoridade perante a natureza, da cabeça e do coração, a falsa impressão de controle perante a vida.
Que bom para quem tem alma de entender.
Toda Santa Teresa viu. Toda a Coroa, Falet,também o Morro dos Prazeres. Todo mundo viu, e ai de quem estava na rua, ai deste, como viu...
Primeiro um ar quente inundou os largos, cheios de pessoas com suas cervejinhas, celebrando aquele dia quente de sol, de céu azul, dia perfeito de sol se pôr vermelho atrás do morro visto do terraço, de lua crescente que veio sorrindo. E foi aí, depois da lua sorrir que um estranho ar quente de mofo e cinza,um incômodo ar quente de pó veio. Seguiram-no fracos pingos de chuva, que em vão tentaram dizer a que vinham, pingaram em aviso: aí vem coisa, ou de tempestade ou de vento, de vingança ou de varrida, de limpeza geral, de levantar defunto.
Eu comigo inundada também de mormaço, de mofo e cinza, de escuro. De poeira: Haja poeira para tanta estrada esburacada neste mundo velho sem porteira.
No breu ouve-se um grito aos quatro cantos, um grito de guerra. Mas ouve-se com a nuca, com o frio na espinha, ouve-se de arrepio, de coisa estranha. As folhas se agitam nas àrvores magrelas da janela, um redemoinho se forma num canto de paralelepípedo, e por entre os vagões do bonde: Menino, isso deve ser coisa de Pererê, só pode. É Saci arretado isso, na minha terra cansei de ver.
Mas o grito ainda arrepia a nuca. É de Saci, pode até ser. Mas quem manda neste vento é Oyá Iansã, é a guerreira quem se manifesta. E quando ela se zanga, painho, sai de baixo. Sai da frente que vem vendaval.
Num rebuliço, as ruas começam a perder fregueses corridos nos carros, bondes e táxis. Olha que aí vem coisa. Um bêbado acostumado com desgraça gargalha descendo a ladeira: eu vou voar! Eu vou voar!
Em mim o vento causa medo e excitação. Um certo tipo de respeito assustado, e de deleite ao mesmo tempo. Vento no cabelo, vento no suor, vento na janela, sempre amei vento. Porque tenho para mim que o vento, quando é destes de levantar tudo, de sacudir, leva e traz consigo coisas do espírito da gente. Traz até mesmo a loucura, traz a mudaça. Os ventos da mudança, mais uma vez recorrem em minha história.
Pelo vitral da porta antiga de madeira, observo a voar uma caixa d'àgua, pedaços de madeira, lixo, e muitas folhas secas. Elas voam e vêm até meu quarto, entram, tomam espaço, se pousam no chão. Ouço um estrondo de uma porta que se arrebenta com a força da assoprada. Nada se pode fazer contra a vontade de Oyá, a força dos ventos da mudança, a força dos ventos da luta, da guerra. Às vezes também o vento é de Xangô, segundo me disse um camarada uma vez no quintal de casa, não sei.
Quinze minutos depois, o vento cessa de sopetão.
Na rua, só o lixo, a poeira, tocos de madeira, objetos perdidos, alguns sobreviventes do ocorrido a sair dos esconderijos e a voltar a caminhar nas ruas bagunçadas, remexidas, reviradas.
No chão de meu quarto, folhas secas, lágrimas passadas, poeira dos tempos, saudades de quem já partiu, poemas, partituras, uma fita vermelha de cetim.
Mais uma vez, os ventos da mudança varrem de mim e das ruas, da nossa minoridade perante a natureza, da cabeça e do coração, a falsa impressão de controle perante a vida.
Que bom para quem tem alma de entender.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
180
Oito e cinco da manhã, segunda-feira. Embarco no 180 que vai para a Central do Brasil. Destino: Saúde, perto da Gamboa, para conhecer uma escola de percussão na qual pretendo ingressar. Não conheço o caminho, então, assunto com o povo espremido:
- Você é de Minas Gerais?
- Não senhor, sou da divisa, uma cidade pequena do interior de São Paulo que fica pertinho de Minas, coisa de quinze minutos...
- Ah, terra boa a de Minas Gerais! Você sabe, eu sou compositor, eu escrevi uma música sobre a terra de Minas Gerais, gosto muito de lá. Lugar rico de comida e de povo, de dinheiro e de saúde.
- Que maravilha, o senhor é compositor?
- Sou sim.
- Eu sou cantora, e tambem arrisco compor uma coisa ou outra.
- Ah, que bom, então você deve conhecer esta música que fiz, é assim : "Ó Minas Gerais...ó Minas Gerais...quem te conhece não esquece jamais...ó Minhas Gerais..."
- Caramba, foi o senhor que compôs esta música, que fantástico. Ela é muito famosa mesmo.
(Penso comigo: O Rio de Janeiro tem destas coisas, é fácil encontrar compositores e artistas, em todo canto tem um. Caramba, eu adoro esta canção de Minas, é clássica.)
- No mais eu compus muitas outras canções de sucesso, mas vou ser sincero, menina,o difícil é ver o dinheiro destas músicas voltar pro bolso da gente.Eu compus uma outra também que se chama "São Paulo Quatrocentão", muito famosa.
- Pois é, imagino como deve ser, senhor. Esta de São Paulo eu não conheço.
- Hoje em dia eu trabalho com jornalismo, escrevo para O Globo e mando algumas coisas para o New York Times, como noticias de interesse internacional, daqui do Brasil.
- Ah, que bom. Pelo menos o senhor tem a chance de trabalhar com outras coisas para se manter, já que as composições não garantem o cascalho...
- Pois é. Por exemplo, eu sou o compositor de uma música que todos os Brasileiros conhecem, o Hino Nacional...
(Penso: an?)
- ...Mas cadê a grana, me diz, até hoje nunca vi. Quando eu escrevi uma das publicações mais famosas do mundo, a BÍBLIA, ainda cheguei a receber uns trocados, mas depois que veio este monte de igreja evangélica, e tal, é um tal de xerocar a Bíblia, eu estou perdendo rios de dinheiro com direitos autorais.
(Penso: Ai meu Deus, o cara é doido e eu aqui acreditando na conversa dele de compositor...mas tão bem vestido assim e falando de maneira tão culta, quem iria desconfiar...Dou risada sozinha. Insisto, este Rio de Janeiro está cheio de artistas, este cara é doido de pedra, mas é um talento!Tenho cãimbra de tanto rir sozinha.)
- Minha filha, vou fazer o seguinte. Aqui está meu celular, você me liga porque eu tenho um sucesso para você gravar. está decidido, eu tinha pensando em chamar estas moças da Lapa, Teresa Cristina, Marisa Monte, mas eu já to de saco cheio delas, porque ficam me pedindo sambas sem parar. Então fica assim, eu estou com um sucesso na manga, quem grava é você. Depois eu mando meu pessoal distribuir aí nas rádios, Rádio Nacional, estas coisas de protocolo, e você vai emplacar, vai ver só. Que maravilha, vamos ganhar uma nota firme!
- Nossa, que bom... com certeza vou gravar com o maior apreço, senhor. Será uma honra para mim gravar uma canção de um compositor tão conhecido.
(Penso: Ai, como eu queria que fosse verdade...sonho meu, ai ai sonho meu...Que inocência a minha. Começo a ficar impaciente com tanta ladainha.)
- Que nada menina, se a gente não ajudar esta juventude de hoje, ela não vai para frente, eu fico feliz em ser útil. É verdade que estou bastante ocupado atualmente com a minha candidatura a presidente, estou concorrendo com o Serra, mas já estou em segundo lugar nas pesquisas. Você vai ver. Vou ver com meus acessores, quem sabe fazemos o jingle da campanha juntos também.
- Ahan. Claro...
- Bem, tenho que descer, cheguei no meu ponto (Av. Rio Branco). Me liga hein, vou esperar.
- Com certeza ligo sim. Até mais.
(Penso: caramba, que papo surreal. Me sento ao lado de uma senhorinha com cara de simpática)
- Eu sempre evito conversar com ele, ele é bonzinho, mas fala demais...
- Pois é senhora, ele veio com uns papos meio esquisitos...Mas enfim, a senhora sabe onde fica a Rua Camerino, na Saúde?
- Sei sim, estamos quase lá, uns três ponto adiante.
- Ah, que bom...
- Por exemplo, eu acho que a pessoa pode ter coisas incríveis, mas não deve ficar falando por aí, sabe. Menina, você sabe mexer com computador?
- Sei.
- Pois é, eu não sei, mas estou muito preocupada, porque sabe, eu faço previsões.
(Penso: ai meu Deus, será possível que lá vem mais uma?)
- Eu previ que o Brasil ia perder no segundo tempo esta Copa do Mundo, e eu precisava mandar um e-mail para os jornalistas importantes, e explicar que o que os meninos precisam é de uma injeção de energia no segundo tempo...Tem muita macumba, muita coisa ruim, estes meninos estão ficando sem energia no segundo tempo. E aí, em 2014, a Copa vai ser aqui, imagina este Rio de Janeiro se os meninos perderem?
- A senhora quer que eu mande este e-mail para os jornalistas avisando que a senhora fez esta previsão?
- É, eu acho que é uma boa...Porque eu previ outras coisas, como o ataque nas torres gêmeas, o sequestro da filha do Silvio Santos, um monte de coisa eu previ.Eu tenho sonhos de vidência, mas eu tenho um problema...Só consigo entender os sonhos depois que as coisas já aconteceram, sabe. Quando eu previ a tragédia nas torres gêmeas, eu sonhei que estava toda envolta de fumaça, por todos os lados. Dois dias depois, as torres gêmeas foram atacadas. Daí entendí, era uma previsão. Quer dizer, isso tudo poderia ter sido evitado se eu sobesse mexer na internet. Era só passar um e-mail para o BiuCrinto. E a Tsunami, então? Eu previ também, menina... E agora, eu to prevendo que vai ser isso na Copa de 2014. Se os meninos não tomar conta, eles dançam no segundo tempo das quartas de final.
- Entendi...Eu mando um e-mail para a CBF sim.
(Penso: para o mundo que eu quero descer.Já entendi tudo, sou eu a doida nesta história, não é possível que todos etejam abilolados e só eu seja a correta. Meu Deus, eu enlouqueci e não percebi, eu estou completamtente doida... Porque se estas pessoas estão me falando estas coisas, alguém de nós deve estar fora da casinha. O primeiro eu até desconfiei que o doido era ele, mas agora são dois. Dois contra um. É isso,fui eu quem desmiolou!!!)
- Tá bom filha, muito obrigada. Olha aí, Rua Camerino, seu ponto chegou.
Minhas preces foram atendidas. Eu pedi para o mundo parar e eu descer, e aconteceu. Eu desci...Meu ponto chegou, estou na Rua Camerino, e ainda mais: o ponto é exatamente em frente ao número 60, o endereço que eu estava procurando...tem um homem deitado no chão bem em frente ao degrau do busão, só pode ser um sinal...sim, é um sinal com certeza, pois uma vez isso já aconteceu comigo. Significa que se eu pular ele e chegar do outro lado vai dar certo o que eu planejava. Olha, é mesmo aqui a esola de música. Vejo o letreiro: Batucadas Brasileiras. Brasil, tudo a ver com o que a senhora acabou de me falar no ônibus...e o senhor, do Hino Nacional...hino, música, brasil, batucadas...toc toc, tem alguém aí? Meu cérebro responde: não, você se abilolou, pirou, ficou doida, percebeu não? Se liga, olha os sinais, o Hino, a Copa, a Bíblia!!A Bìblia!!É Jesus quem vos diz à cabeça, você pirou na esquina da Rua Venezuela com a Sacadura Cabral!Você endoideceu em pleno
180-Cosme Velho/Central, numa segunda-feira de manhã.
É, o Rio de Janeiro tem destas coisas...
- Você é de Minas Gerais?
- Não senhor, sou da divisa, uma cidade pequena do interior de São Paulo que fica pertinho de Minas, coisa de quinze minutos...
- Ah, terra boa a de Minas Gerais! Você sabe, eu sou compositor, eu escrevi uma música sobre a terra de Minas Gerais, gosto muito de lá. Lugar rico de comida e de povo, de dinheiro e de saúde.
- Que maravilha, o senhor é compositor?
- Sou sim.
- Eu sou cantora, e tambem arrisco compor uma coisa ou outra.
- Ah, que bom, então você deve conhecer esta música que fiz, é assim : "Ó Minas Gerais...ó Minas Gerais...quem te conhece não esquece jamais...ó Minhas Gerais..."
- Caramba, foi o senhor que compôs esta música, que fantástico. Ela é muito famosa mesmo.
(Penso comigo: O Rio de Janeiro tem destas coisas, é fácil encontrar compositores e artistas, em todo canto tem um. Caramba, eu adoro esta canção de Minas, é clássica.)
- No mais eu compus muitas outras canções de sucesso, mas vou ser sincero, menina,o difícil é ver o dinheiro destas músicas voltar pro bolso da gente.Eu compus uma outra também que se chama "São Paulo Quatrocentão", muito famosa.
- Pois é, imagino como deve ser, senhor. Esta de São Paulo eu não conheço.
- Hoje em dia eu trabalho com jornalismo, escrevo para O Globo e mando algumas coisas para o New York Times, como noticias de interesse internacional, daqui do Brasil.
- Ah, que bom. Pelo menos o senhor tem a chance de trabalhar com outras coisas para se manter, já que as composições não garantem o cascalho...
- Pois é. Por exemplo, eu sou o compositor de uma música que todos os Brasileiros conhecem, o Hino Nacional...
(Penso: an?)
- ...Mas cadê a grana, me diz, até hoje nunca vi. Quando eu escrevi uma das publicações mais famosas do mundo, a BÍBLIA, ainda cheguei a receber uns trocados, mas depois que veio este monte de igreja evangélica, e tal, é um tal de xerocar a Bíblia, eu estou perdendo rios de dinheiro com direitos autorais.
(Penso: Ai meu Deus, o cara é doido e eu aqui acreditando na conversa dele de compositor...mas tão bem vestido assim e falando de maneira tão culta, quem iria desconfiar...Dou risada sozinha. Insisto, este Rio de Janeiro está cheio de artistas, este cara é doido de pedra, mas é um talento!Tenho cãimbra de tanto rir sozinha.)
- Minha filha, vou fazer o seguinte. Aqui está meu celular, você me liga porque eu tenho um sucesso para você gravar. está decidido, eu tinha pensando em chamar estas moças da Lapa, Teresa Cristina, Marisa Monte, mas eu já to de saco cheio delas, porque ficam me pedindo sambas sem parar. Então fica assim, eu estou com um sucesso na manga, quem grava é você. Depois eu mando meu pessoal distribuir aí nas rádios, Rádio Nacional, estas coisas de protocolo, e você vai emplacar, vai ver só. Que maravilha, vamos ganhar uma nota firme!
- Nossa, que bom... com certeza vou gravar com o maior apreço, senhor. Será uma honra para mim gravar uma canção de um compositor tão conhecido.
(Penso: Ai, como eu queria que fosse verdade...sonho meu, ai ai sonho meu...Que inocência a minha. Começo a ficar impaciente com tanta ladainha.)
- Que nada menina, se a gente não ajudar esta juventude de hoje, ela não vai para frente, eu fico feliz em ser útil. É verdade que estou bastante ocupado atualmente com a minha candidatura a presidente, estou concorrendo com o Serra, mas já estou em segundo lugar nas pesquisas. Você vai ver. Vou ver com meus acessores, quem sabe fazemos o jingle da campanha juntos também.
- Ahan. Claro...
- Bem, tenho que descer, cheguei no meu ponto (Av. Rio Branco). Me liga hein, vou esperar.
- Com certeza ligo sim. Até mais.
(Penso: caramba, que papo surreal. Me sento ao lado de uma senhorinha com cara de simpática)
- Eu sempre evito conversar com ele, ele é bonzinho, mas fala demais...
- Pois é senhora, ele veio com uns papos meio esquisitos...Mas enfim, a senhora sabe onde fica a Rua Camerino, na Saúde?
- Sei sim, estamos quase lá, uns três ponto adiante.
- Ah, que bom...
- Por exemplo, eu acho que a pessoa pode ter coisas incríveis, mas não deve ficar falando por aí, sabe. Menina, você sabe mexer com computador?
- Sei.
- Pois é, eu não sei, mas estou muito preocupada, porque sabe, eu faço previsões.
(Penso: ai meu Deus, será possível que lá vem mais uma?)
- Eu previ que o Brasil ia perder no segundo tempo esta Copa do Mundo, e eu precisava mandar um e-mail para os jornalistas importantes, e explicar que o que os meninos precisam é de uma injeção de energia no segundo tempo...Tem muita macumba, muita coisa ruim, estes meninos estão ficando sem energia no segundo tempo. E aí, em 2014, a Copa vai ser aqui, imagina este Rio de Janeiro se os meninos perderem?
- A senhora quer que eu mande este e-mail para os jornalistas avisando que a senhora fez esta previsão?
- É, eu acho que é uma boa...Porque eu previ outras coisas, como o ataque nas torres gêmeas, o sequestro da filha do Silvio Santos, um monte de coisa eu previ.Eu tenho sonhos de vidência, mas eu tenho um problema...Só consigo entender os sonhos depois que as coisas já aconteceram, sabe. Quando eu previ a tragédia nas torres gêmeas, eu sonhei que estava toda envolta de fumaça, por todos os lados. Dois dias depois, as torres gêmeas foram atacadas. Daí entendí, era uma previsão. Quer dizer, isso tudo poderia ter sido evitado se eu sobesse mexer na internet. Era só passar um e-mail para o BiuCrinto. E a Tsunami, então? Eu previ também, menina... E agora, eu to prevendo que vai ser isso na Copa de 2014. Se os meninos não tomar conta, eles dançam no segundo tempo das quartas de final.
- Entendi...Eu mando um e-mail para a CBF sim.
(Penso: para o mundo que eu quero descer.Já entendi tudo, sou eu a doida nesta história, não é possível que todos etejam abilolados e só eu seja a correta. Meu Deus, eu enlouqueci e não percebi, eu estou completamtente doida... Porque se estas pessoas estão me falando estas coisas, alguém de nós deve estar fora da casinha. O primeiro eu até desconfiei que o doido era ele, mas agora são dois. Dois contra um. É isso,fui eu quem desmiolou!!!)
- Tá bom filha, muito obrigada. Olha aí, Rua Camerino, seu ponto chegou.
Minhas preces foram atendidas. Eu pedi para o mundo parar e eu descer, e aconteceu. Eu desci...Meu ponto chegou, estou na Rua Camerino, e ainda mais: o ponto é exatamente em frente ao número 60, o endereço que eu estava procurando...tem um homem deitado no chão bem em frente ao degrau do busão, só pode ser um sinal...sim, é um sinal com certeza, pois uma vez isso já aconteceu comigo. Significa que se eu pular ele e chegar do outro lado vai dar certo o que eu planejava. Olha, é mesmo aqui a esola de música. Vejo o letreiro: Batucadas Brasileiras. Brasil, tudo a ver com o que a senhora acabou de me falar no ônibus...e o senhor, do Hino Nacional...hino, música, brasil, batucadas...toc toc, tem alguém aí? Meu cérebro responde: não, você se abilolou, pirou, ficou doida, percebeu não? Se liga, olha os sinais, o Hino, a Copa, a Bíblia!!A Bìblia!!É Jesus quem vos diz à cabeça, você pirou na esquina da Rua Venezuela com a Sacadura Cabral!Você endoideceu em pleno
180-Cosme Velho/Central, numa segunda-feira de manhã.
É, o Rio de Janeiro tem destas coisas...
quinta-feira, 27 de maio de 2010
Triste Fado
Enamorei-me por um triste fado,
Sem jamais ter imaginado que podia.
Por acaso, nos lábios de uma cantora,
Este fado veio, a revelia,
Em notas tristes, sua guitarra que gemia
Fazia em prantos desabarem meus olhos colonizados
Fazia encanto aos meus ouvidos acostumados
A chorar os sambas, os choros e as quadrilhas
Ó triste fado, o que me fizeste?
Me deixaste louca, amarrada aos teus pés
Harmonias de sangue que outrora
Fizeram a glória,nos acabaram em contos de Réis
Meus conterrâneos brasileiros não me culpem
No samba hei de viver e hei de deixar a vida
Mas este fado, fora de conjuntura
Me deixou incômoda, apaixonada, aturdida
Deixe-me pandeiro, cantar apenas um fado
Deixe-me tamborim, escapar da ritmia
Deixe-me cavaquinho, apenas desta vez primeira
Ser apenas do fado, apenas por este dia
Seja por minha bisavó, Ferreira
Ou por meu tataravô, de Souza,
Ou pelo lado dos Camargo
Que amargo, saber-me moura!
Ai que lindo, chorar de amor,
Por um homem belo,atirar-me a deriva!
Tantos foram os grandes navegadores
Quanto é agora esta minha dor lasciva
Que corre ao ventre emocionado
Ó triste fado, ai quem me dera
Fazer Maria, deste teu legado
O triste legado emocionado
Que um dia Portugal nos dera!
Sem jamais ter imaginado que podia.
Por acaso, nos lábios de uma cantora,
Este fado veio, a revelia,
Em notas tristes, sua guitarra que gemia
Fazia em prantos desabarem meus olhos colonizados
Fazia encanto aos meus ouvidos acostumados
A chorar os sambas, os choros e as quadrilhas
Ó triste fado, o que me fizeste?
Me deixaste louca, amarrada aos teus pés
Harmonias de sangue que outrora
Fizeram a glória,nos acabaram em contos de Réis
Meus conterrâneos brasileiros não me culpem
No samba hei de viver e hei de deixar a vida
Mas este fado, fora de conjuntura
Me deixou incômoda, apaixonada, aturdida
Deixe-me pandeiro, cantar apenas um fado
Deixe-me tamborim, escapar da ritmia
Deixe-me cavaquinho, apenas desta vez primeira
Ser apenas do fado, apenas por este dia
Seja por minha bisavó, Ferreira
Ou por meu tataravô, de Souza,
Ou pelo lado dos Camargo
Que amargo, saber-me moura!
Ai que lindo, chorar de amor,
Por um homem belo,atirar-me a deriva!
Tantos foram os grandes navegadores
Quanto é agora esta minha dor lasciva
Que corre ao ventre emocionado
Ó triste fado, ai quem me dera
Fazer Maria, deste teu legado
O triste legado emocionado
Que um dia Portugal nos dera!
terça-feira, 25 de maio de 2010
Carta a Vinícius de Moraes.
Rio de Janeiro, 25 de maio de 2010.
Querido Vinícius,
Você não me conhece, e pode até achar estranho receber uma carta a estas alturas, numa terça-feira em que no céu você deve estar muito ocupado com seus parceiros Tom, Baden e tantos outros, fazendo mil cantigas para os anjos boêmios.
Eu daqui da vida, busco seguir religiosamente seus passos,andando sempre em boa companhia, ouvindo boa música, tentando compor e cantando sempre, sempe.
Mas queria te perguntar uma coisa, poetinha (se é que assim me dá a liberdade para chamá-lo), como era em seu tempo? Era tão gostoso assim mesmo, as pessoas em volta de uma mesa, cantando sambas de amor, era assim que se fazia de verdade, ou será que inventaram tudo isso só para deixar um coração romântico como o meu crente? Eu queria tanto poetinha,tenho tanta saudade deste tempo em que eu ainda nem vivia, mas já devia saber que nasceria com esta sina. Vontade de ver os camaradas bebendo seus uísques, fumando seus cigarros e criando as mais belas canções numa terça-feira a noite como esta, quando se tem inspiração de sobra...Mas daqui, nenhum amigo por perto. E sempre penso:
"Se eu fosse o Vinícius, o que faria agora? Faria um telefonema e as pessoas logo viriam, felizes com seus papéizinhos e canetas, violões, flautas, bandolins, e se sentariam em volta de uma grande mesa com boa comida, para cantar a madrugada adentro?"
Ah!Como eu seria ainda mais feliz!
Mas hoje vejo algumas pessoas, que não sei, parece que nunca te ouviram, parece que não têm medo de não receberem perdão por não se doarem, por não abrirem o coração, por fazerem uma passagem abobada pela terra...Parecem que não falam com Deus ao ouvirem música, ao contemplarem o povo na rua, ao verem uma obra de arte, ou ao lerem um belo soneto de vossa autoria.
Se pudesse querido Vinícius, teria eu também vivido na época em que você viveu. Mas daí eu teria problemas com esta história de processo reencarnatório, porque acho que iria querer voltar mais e mais vezes para a Terra, em menos tempo do que deveria. Ou não, e então faria como você e ficaria com meus maiores parceiros aí no céu, que seriam recebidos com grande festa, e juntos permaneceríamos pelos tempos cantando e recitando poemas divinos o dia inteiro de chinelas para tantos anjos boêmios...
Claro que a resposta desta carta não virá tão breve, não no tempo dos humanos, nem no tempo do correio. Mas desejo sinceramente que venha em inspiração a mim, de sua parte.
No mais, espero que se divirta por aí com as belas almas, pois ouvi dizer que no céu as pessoas escolhem sua aparência eteral, e tenho certeza que tantas garotas devem estar por aí te paquerando e causando arrepios e rimas, quantas haviam por aqui.
Que teu espírito perdure sempre como parte integrante de nossos espíritos, e que quem sabe um dia, possamos nos encontrar. Mas espero que demore muito, com todo o respeito, se é que você me entende. Tenho pavor da morte. Só não é maior, porque sei que encontrarei uma grande festa de samba, quando chegar do lado daí, e logo esquecerei de tudo o mais, e viverei feliz por toda a eternidade, se Deus assim quiser...
Vinícius velho, Saravá.
Querido Vinícius,
Você não me conhece, e pode até achar estranho receber uma carta a estas alturas, numa terça-feira em que no céu você deve estar muito ocupado com seus parceiros Tom, Baden e tantos outros, fazendo mil cantigas para os anjos boêmios.
Eu daqui da vida, busco seguir religiosamente seus passos,andando sempre em boa companhia, ouvindo boa música, tentando compor e cantando sempre, sempe.
Mas queria te perguntar uma coisa, poetinha (se é que assim me dá a liberdade para chamá-lo), como era em seu tempo? Era tão gostoso assim mesmo, as pessoas em volta de uma mesa, cantando sambas de amor, era assim que se fazia de verdade, ou será que inventaram tudo isso só para deixar um coração romântico como o meu crente? Eu queria tanto poetinha,tenho tanta saudade deste tempo em que eu ainda nem vivia, mas já devia saber que nasceria com esta sina. Vontade de ver os camaradas bebendo seus uísques, fumando seus cigarros e criando as mais belas canções numa terça-feira a noite como esta, quando se tem inspiração de sobra...Mas daqui, nenhum amigo por perto. E sempre penso:
"Se eu fosse o Vinícius, o que faria agora? Faria um telefonema e as pessoas logo viriam, felizes com seus papéizinhos e canetas, violões, flautas, bandolins, e se sentariam em volta de uma grande mesa com boa comida, para cantar a madrugada adentro?"
Ah!Como eu seria ainda mais feliz!
Mas hoje vejo algumas pessoas, que não sei, parece que nunca te ouviram, parece que não têm medo de não receberem perdão por não se doarem, por não abrirem o coração, por fazerem uma passagem abobada pela terra...Parecem que não falam com Deus ao ouvirem música, ao contemplarem o povo na rua, ao verem uma obra de arte, ou ao lerem um belo soneto de vossa autoria.
Se pudesse querido Vinícius, teria eu também vivido na época em que você viveu. Mas daí eu teria problemas com esta história de processo reencarnatório, porque acho que iria querer voltar mais e mais vezes para a Terra, em menos tempo do que deveria. Ou não, e então faria como você e ficaria com meus maiores parceiros aí no céu, que seriam recebidos com grande festa, e juntos permaneceríamos pelos tempos cantando e recitando poemas divinos o dia inteiro de chinelas para tantos anjos boêmios...
Claro que a resposta desta carta não virá tão breve, não no tempo dos humanos, nem no tempo do correio. Mas desejo sinceramente que venha em inspiração a mim, de sua parte.
No mais, espero que se divirta por aí com as belas almas, pois ouvi dizer que no céu as pessoas escolhem sua aparência eteral, e tenho certeza que tantas garotas devem estar por aí te paquerando e causando arrepios e rimas, quantas haviam por aqui.
Que teu espírito perdure sempre como parte integrante de nossos espíritos, e que quem sabe um dia, possamos nos encontrar. Mas espero que demore muito, com todo o respeito, se é que você me entende. Tenho pavor da morte. Só não é maior, porque sei que encontrarei uma grande festa de samba, quando chegar do lado daí, e logo esquecerei de tudo o mais, e viverei feliz por toda a eternidade, se Deus assim quiser...
Vinícius velho, Saravá.
terça-feira, 27 de abril de 2010
Boca de Siri
Ai, me calar...
Melhor solução para mim
Porque se eu retrucasse, bruaca
Minha matraca não teria fim!
Só não te chamei de costa-oca,
mal-amada dos infernos e o raio que a parta
Porque desde pequenininha
Aprendi com minha mãezinha: "No grito nada se consegue!"
Por isso hoje, nem te digo nada!
Nem que vá arranjar alguém que lhe ame, ingrata
Nada de pata na sua lata, nada de pontapé
Você já é feia e mal lavada
E além de tudo, é mulher.
E com mulher que é coisa da minha laia,
Que eu sei que tem veneno
Eu não me meto, sua lacraia!
Eu prefiro congelar no sereno!
Te peço assim com jeito, então enxerga:
Sai de mim coisa ruim, me erra!
Nesta terra eu inda sou forasteira, eu sei...
Mas não te meta, que se o bicho pega
A raiva me cega, esqueço da lei.
E nem adianta me botar ziquizira,
Perseguindo meus passos pela ladeira,
Que nem com reza brava me pega na corrida...
Posso ser boa, mas não estou de bobeira!
(E para maiores efeitos, como toda mulher,
também sei ser feiticeira.)
Melhor solução para mim
Porque se eu retrucasse, bruaca
Minha matraca não teria fim!
Só não te chamei de costa-oca,
mal-amada dos infernos e o raio que a parta
Porque desde pequenininha
Aprendi com minha mãezinha: "No grito nada se consegue!"
Por isso hoje, nem te digo nada!
Nem que vá arranjar alguém que lhe ame, ingrata
Nada de pata na sua lata, nada de pontapé
Você já é feia e mal lavada
E além de tudo, é mulher.
E com mulher que é coisa da minha laia,
Que eu sei que tem veneno
Eu não me meto, sua lacraia!
Eu prefiro congelar no sereno!
Te peço assim com jeito, então enxerga:
Sai de mim coisa ruim, me erra!
Nesta terra eu inda sou forasteira, eu sei...
Mas não te meta, que se o bicho pega
A raiva me cega, esqueço da lei.
E nem adianta me botar ziquizira,
Perseguindo meus passos pela ladeira,
Que nem com reza brava me pega na corrida...
Posso ser boa, mas não estou de bobeira!
(E para maiores efeitos, como toda mulher,
também sei ser feiticeira.)
sábado, 13 de março de 2010
Baía sem H
Guanabara, quantos poemas já ganhastes eu nem sei.
Mas hoje, paisagem, te conheço finalmente e digo
Mereces tantos poemas, quantos poetas há na face
Desta terra de cão, deste chão onde jazem imundos estes mesmos poetas.
Guanabara, no tempo de Kehinde ainda eras
Mas hoje já te fizeram tantas estradas
Ruelas,
Muralhas,
Pobres casas e barracões, imensos prédios cheios de nada.
Quantas lágrimas senhora Iemanjá chorou por ti
Mas quantas vezes deve ainda se mirar em teus espelhos de água salgada...
Sambo em teu louvor, aqui do alto do Outeiro
Por sua Glória observada de longe,
E receio, pintura, que não faça poema ou verso,
Mas faça questão de tê-la, a preço de ouro
Colocada à janela do quarto de dormir.
Mas hoje, paisagem, te conheço finalmente e digo
Mereces tantos poemas, quantos poetas há na face
Desta terra de cão, deste chão onde jazem imundos estes mesmos poetas.
Guanabara, no tempo de Kehinde ainda eras
Mas hoje já te fizeram tantas estradas
Ruelas,
Muralhas,
Pobres casas e barracões, imensos prédios cheios de nada.
Quantas lágrimas senhora Iemanjá chorou por ti
Mas quantas vezes deve ainda se mirar em teus espelhos de água salgada...
Sambo em teu louvor, aqui do alto do Outeiro
Por sua Glória observada de longe,
E receio, pintura, que não faça poema ou verso,
Mas faça questão de tê-la, a preço de ouro
Colocada à janela do quarto de dormir.
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